Um artigo de Giancarlo Lucchetti e outros, publicado em mais de uma revista científica, propõe que o envelhecimento possui uma relação íntima com a espiritualidade nos seus mais diferentes aspectos e conclui que há escassez de pesquisas sobre espiritualidade/religiosidade em idosos.
Por espiritualidade os autores entendem: uma busca pessoal por entender questões relacionadas à vida, ao seu sentido, sobre as relações com o sagrado ou transcendente que podem ou não levar ao desenvolvimento de práticas religiosas ou formações de comunidades religiosas.

Impacto no envelhecimento bem-sucedido

Envelhecimento bem-sucedido, conforme proposto por Rowe & Kahn em 1997, envolve três elementos: probabilidade baixa de doenças e de incapacidades relacionadas a elas, alta capacidade funcional cognitiva e física e engajamento ativo com a vida.

Alguns estudos nacionais têm demonstrado que o impacto das crenças pessoais tem influência no envelhecimento bem-sucedido. Em 2005, estudo conduzido no Rio Grande do Sul mostrou que aqueles idosos cujas crenças pessoais davam maior significado a suas vidas tinham até dez vezes mais chance de cursar com envelhecimento bem-sucedido, em comparação com aqueles que não as possuíam. Outro estudo gaúcho realizado por Rosa em 2008 mostrou que a resiliência (capacidade humana muito presente em pacientes com bem-estar espiritual, que consiste em enfrentar, vencer e ser fortalecido ou transformado nas experiências de adversidade) foi associada ao envelhecimento bem-sucedido.
Da mesma forma, estudo internacional realizado por Wong em 1998 demonstrou que as atividades religiosas, o coping religioso (modo de lidar com a doença utilizando-se da religião) e o maior significado à vida eram preditores daqueles que envelheceram de maneira bem-sucedida ou não. Seguindo essa tendência, Crowther e amigos. propuseram uma alteração no modelo de envelhecimento saudável de Rowe & Kahn, que seria a introdução de um quarto fator: a espiritualidade.

O impacto na qualidade de vida tem sido demonstrado de forma quantitativa e qualitativa. Claro exemplo disso foi um inquérito populacional conduzido no município de Botucatu-SP envolvendo 365 idosos. Estes foram questionados sobre o que era qualidade de vida e a resposta “ter religião e fé” foi a sétima mais comum.
Em 2005, foi realizada uma meta-análise dos principais estudos que envolviam o tema espiritualidade e qualidade de vida. Na análise final, houve uma correlação moderada entre níveis mais altos de espiritualidade/religiosidade e melhor qualidade de vida.
Em 2003, Katsuno demonstrou que a espiritualidade estava correlacionada à melhor qualidade de vida subjetiva em pacientes com demência leve. Da mesma forma, outros estudos têm demonstrado uma associação direta entre maior frequência religiosa e maior satisfação com a vida, incluindo um estudo envolvendo 709 pessoas acima de 55 anos que participaram do World Values Survey.
Com a mesma temática, estudo realizado na China demonstrou íntima relação entre qualidade de vida e espiritualidade em idosos com deficiências visuais.

Efeitos nas doenças crônico-degenerativas

Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), as doenças crônico-degenerativas são definidas como doenças não-transmissíveis, que incluem, dentre outras, osteoartrite, osteoporose, hipertensão, coronariopatia, diabetes, hipotireoidismo. Quanto às doenças osteoarticulares, os idosos com artrite que cultivavam um maior número de experiências espirituais diárias possuíam maior energia e menor depressão. Da mesma forma, em pacientes com artrite reumatóide, aqueles com maior espiritualidade tiveram maior resiliência e percepção de saúde.
Em um estudo japonês envolvendo somente doenças cardiovasculares, Hummer e outros. avaliaram uma amostra representativa da população americana de 21.204 pessoas durante oito anos, e, mesmo após controlar para aspectos sociais, físicos e sociodemográficos, a maior frequência religiosa esteve associada a uma menor mortalidade por causas cardiovasculares.
Em 2007, Bekelman e colegas. demonstraram correlação entre maior espiritualidade e menor depressão em pacientes idosos com insuficiência cardíaca, resultado este que foi semelhante ao obtido em uma população iminentemente geriátrica internada por acidente vascular cerebral.
Quanto à hipertensão, apesar da dificuldade de encontrar estudos somente envolvendo a população geriátrica, uma subdivisão do banco de dados NHANES III demonstrou que aqueles que frequentavam pelo menos uma vez por semana a igreja ou templo religioso tinham menor pressão arterial sistólica estatisticamente significativa, quando comparados aos que não frequentavam, inclusive idosos, os mais espiritualizados reportaram menos hipertensão que os demais.

Efeitos nas doenças neuropsiquiátricas
No campo das doenças neuropsiquiátricas, a depressão é talvez a doença que tenha maior correlação com as crenças religiosas e espirituais.
Estudos demonstram maior prevalência de depressão em idosos não-religiosos ou não espiritualizados portadores de neoplasias em reabilitação ou em pacientes da comunidade e em pacientes hospitalizados.
Da mesma forma, há maior remissão da depressão quanto maior a espiritualidade do idoso.
Com relação à ansiedade, estudos demonstram que quanto maior a religiosidade extrínseca (frequência religiosa), maior o grau de ansiedade, porém quanto maior a religiosidade intrínseca (crenças interiorizadas como parte integrante de sua vida), menor o grau de ansiedade.
Segundo Koenig, a ansiedade trazida pelo medo da morte parece diminuir à medida que o idoso é mais espiritualizado.
Já na doença de Alzheimer, alguns estudos têm demonstrado a influência da espiritualidade nas síndromes demenciais. Estudo recente publicado na revista Neurology demonstrou que altos níveis de espiritualidade e práticas religiosas foram associados a uma menor progressão da doença de Alzheimer. Este achado, que já havia sido investigado por Hill e associados. em 2006, mostrou que a frequência religiosa estava ligada a menores taxas de declínio cognitivo, ao avaliar cerca de 3.000 pacientes idosos. Além disso, a prece e a leitura da Bíblia já têm se mostrado alternativas para pacientes demenciados agitados.