Enfim 60 anos, mas com espírito de 22

       Eu já estava na faculdade quando finalmente entendi que minha vida inteira tinha coincidido com a segunda onda do feminismo. -– algo que tinha transformado a cultura americana na concepção de uma jovem do Alabama. Eu sempre tinha entrado sem resistência por portas que se abriam para mim alegremente, ignorando a sonho, o sacrifício e a persistência apaixonada das mulheres que haviam aberto aquelas portas para mim.

       Uma vez entendido isto, também compreendi que eu não quereria ter chegado a este planeta nem um momento antes do que cheguei.

       Uma mulher nascida no Sul do Alabama em 1961 não tinha tempo para a nostalgia. Voltar aos “velhos tempos”, quando as oportunidades para negros e mestiços, e para negras e mestiças, especialmente, eram enormemente limitadas? Não, muito obrigada.

       O único problema em ter nascido em 1961 é que em 2021 se chega aos 60 anos, o que me aconteceu na semana passada. É muito estranho continuar se sentindo com 22, mesmo que todo espelho e toda vitrina de loja ou espelho de elevador revelem a verdade. Sessenta é a idade em que as pessoas precisam admitir que já não são de meia idade.

       Ultimamente, foi ficando claro para mim que eu não gostaria de ter nascido nem mesmo um minuto depois de 1961, tampouco. Na semana passada eu contei isto a uma amiga e sua resposta foi imediata. Como se o pensamento fosse dela mesma. “Porque não teremos de enfrentar o cataclisma?”

       Exatamente. Bem, não exatamente..

       Nos dias em que o noticiário está cheio, de novo, de incêndios, de enchentes catastróficas e colapsos da biodiversidade e pandemia sem fim, e ainda campanha de desinformação para desmentir a emergência climática  — nesses dias, sim. Absolutamente sim. Nesses dias eu fico feliz de ter 60 anos porque significa que quase certamente não viverei para testemunhar o cataclisma que virá, caso a humanidade não mude de comportamento em tempo.

       Mas não é assim que eu penso todos os dias. Nestes dias eu simplesmente me sinto grata pela minha idade.

       Os divertidos cartões de aniversário que nos enviam depois dos 40 anos eram divertidos há 20 anos porque estavam longe da realidade. Agora, são engraçados por serem tão verdadeiros. Um dos cartões que recebi na semana passada mostrava uma foto antiga de uma mulher de maiô que se parecia demais comigo, de maiô. “Na sua idade, nadar pode ser perigoso”, dizia o cartão “ “Os salva-vidas não se esforçam tanto”.

Eu ri tanto que minha barriga dava pulos, efeito de se ter 60 anos, que me incomoda só um pouco. É isto que sou hoje, alguém que se parece com sua mãe madura, a despeito de se exercitar e de ter dieta mais saudável. Além disso, eu amava minha mãe, e amo vê-la de novo nas vitrinas pelas quais eu passo.

       Eu tenho sorte de chegar aos 60 apesar da propensão ao câncer, dos efeitos tardios da Covid, que parece que vão me seguir pelo resto da vida. Por ter sobrevivido a outras infecções – pneumonia – que poderiam ter me matado, pela pura sorte de eu ter nascido depois da invenção dos antibióticos. Doenças infecciosas que costumavam matar gente aos milhões porque também tive a sorte de nascer após a vulgarização das vacinas.

Entristecer-me frente ao envelhecimento seria uma resposta tola a tanta boa sorte.

Agradecida sou pela sorte tremenda de ter vivido o suficiente para ser cercada de amigos verdadeiros.

       Sessenta anos me deram tempo de aprender que amizades verdadeiras não veem da proximidade – por termos estudado na mesma escola, ou por pertencermos à mesma igreja, por termos filhos da mesma idade ou por votarmos no mesmo candidato. A amizade é forjada  ao longo do tempo, na bonança e na tristeza, e amigos verdadeiros são aqueles que continuam a se amar mesmo quando não for conveniente e mesmo quando não concordam sobre alguma coisa.

       Vivi o bastante para ter aprendido, também, que o que é belo e alegre é quase sempre fugaz e não deve ser desperdiçado. Que a rejeição não leva a qualquer relacionamento que valha a pena. Que qualquer coisa que nos separe é oportunidade para um “papo reto”. Que a vida é muito curta para se calçar sapato apertado. Eu espero que ela tenha feito isto.

       A sabedoria talvez seja algo demais para se pedir de uma cultura próxima do trauma coletivo. Talvez a sabedoria só seja adquirida com o tempo, mesmo que o tempo mesmo não seja garantido. ”Não se deveria ficar velho até que se fique sábio” – diz o bobo da corte ao Rei Lear. Ele deveria repetir a frase para os velhos que ostentam cargos públicos, e repetir em tom muito mais alto para os que já deixaram seus cargos públicos mas se sentem desesperados para serem alavancados ao poder.

       Uma amiga de toda a vida, e que fará 60 neste ano, me mandou um e-mail com uma mensagem que contém uma passagem de “A Flor”, poema de George Herbert: “A dor se desmancha como a neve em maio/ Como se não houvessem coisas frias. /Quem pensaria que meu coração enrugado poderia recobrar seu verdor?

       Quem de fato pensaria? Porém, passado um tempo nós prosseguimos de alguma forma. Como as hastes e ramos da primavera, nossos corações enrugados podem recuperar o verdor também. E com a idade eu broto novamente.” Herbert escreveu, e assim é conosco.

       Com tantos desastres sobre nossas cabeças, calamidade após calamidade e mais calamidades, um sentimento como esse soa como um sonho. Ainda assim, décadas sucessivas quase sempre nos oferecem a prova de que o medo e a escuridão passam com o tempo. Provam que trabalho duro pode abrir completamente as portas, como se nunca tivessem sido fechadas.

       É uma grande benção e uma grande maldição que o trabalho duro de apenas uma geração possa remover a lembrança da falta e da dor, mas, principalmente, é uma benção. Significa que mesmo agora, nada ainda está perdido. As décadas podem nos ensinar isto também. (Margaret Renkl, em The New York Times)

Diferentes momentos de envelhecer

       A historiadora Mary Del Priore define, em artigo publicado em O Estado de S. Paulo, que a velhice é um tema que provoca arrepios. Palavra carregada de inquietação e angústia, ela também representa uma realidade difícil de capturar.

       Quando é que se fica velho? Aos 60, 65 ou 70 anos? Nada mais flutuante do que os contornos da velhice, vista como um conjunto complexo fisiológico-psicológico e social. Temos a idade de nossas artérias, de nosso coração, de nosso comportamento? Ou bem, é no olhar dos outros que enxergamos nossa idade?

       Enfim, a única certeza é que desde que nascemos começamos a envelhecer. Mas o fazemos em velocidades diferentes. O modo de vida, o ambiente, a situação social aceleram ou retardam a evolução biopsicológica e entramos na velhice em idades muito diferentes.

       Digo tudo isso porque o Brasil está envelhecendo. Uma boa razão para começarmos a nos aproximar do tema é a mudança de relação com nossos membros da Terceira Idade. Antes marginais, eles hoje são a espécie mais comum de cidadãos. O idoso e a idosa em boa forma, sábios e experientes, cada vez mais fazem parte da publicidade: oferecem máquinas de lavar, passeios turísticos, seguros de vida e outros produtos.

       A medicina se debruça sobre os problemas específicos dessa clientela, os economistas se inquietam frente ao aumento de aposentadorias e os demógrafos se desolam com uma pirâmide de idades invertida – mais velhos, menos jovens – que aponta, a médio prazo, para um Brasil cheio de rugas. O Estado também vai tomando consciência da amplitude da situação e, com a lentidão habitual, vai começando a pensar nela. E os historiadores também.

       Um deles, George Minois, fez um estudo interessante sobre os idosos na sociedade inca, do Peru. Ele descobriu informações interessantes, que aqui reproduzo. O Estado inca, que funcionava como espécie de grande família do chefe inca, procurou atribuir um papel preciso aos idosos.

       Sociedade extremamente organizada, cada um tinha o seu papel, como as formigas num formigueiro. Antes do século 12, os indígenas matavam e comiam os velhos. Mas a partir da conquista do chefe Manco Capac, no século 12, uma nova organização foi estabelecida, oferecendo aos idosos toda a segurança. Recenseados a cada cinco anos, eles eram repartidos por idade: dos 50 aos 70, dos 70 aos 80 e mais, demonstrando que a longevidade era normal. Havia a classe dos que “andavam com facilidade”, dos “desdentados” e dos que só queriam comer e dormir. Registros da igreja católica, em certos vilarejos, a partir de 1840, comprovam que existia uma forte proporção de centenários que fumavam, bebiam e tinham uma surpreendente atividade sexual.

       Numa sociedade sem escrita, os idosos tinham o papel de arquivos vivos. Eram conselheiros de soberanos e cada tribo enviava ao chefe inca um conselho informal, a fim de guiá-lo nas suas decisões. As mulheres idosas tinham o papel de médicas, enfermeiras e parteiras. Eram também sacerdotisas no templo do Sol, em Cuzco. Os idosos do povo eram cuidados pela comunidade. Os lavradores trabalhavam suas terras gratuitamente e lhes levavam alimentos. Recebiam também grãos dos armazéns do chefe inca.

       Um tributo especial, na forma de corveia – ou seja, de trabalho obrigatório -, consistia em fabricar roupas e sapatos para os idosos. Que estavam também livres de pagar impostos a partir dos 50 anos. Uma sociedade assim foi apresentada como utópica aos europeus, tendo um efeito importante na imaginação dos homens e mulheres entre os séculos 16 e 18. Nela, cada um tinha um papel que era exercido em benefício da comunidade. Não é à toa que os europeus acreditavam que a flor da juventude, aquela mesma que Deus teria plantado no paraíso terrestre, se esconderia nas montanhas andinas. Exatamente entre o Peru e o Equador.

Mais um inimigo – o Idadismo

      O idadismo não é um termo tão conhecido quanto o machismo, o racismo ou a homofobia. Porém, é um preconceito bastante presente na sociedade e, assim como todas as formas de discrimização, precisa ser combatido.

      Especialmente no mercado de trabalho, mas também na vivência social como um todo, essetipo de intolerância aparece cada vez mais.

      A experiência parece ter ficado em segundo plano, deixando de ser um critério de qualificação profissional imprescindível, sendo substituída por outros valores, que são igualmente importantes, como criatividade e inovação, por exemplo. É como se, pelo fato de a pessoa ser mais velha, ela perdesse a capacidade de aprender, se reinventar e se atualizar.

      Mas não são somente os idosos que sofrem com esse tipo de preconceito. Os mais novos, vez ou outra, também acabam sendo vítimas.

O que é idadismo?

Idadismo: o que é, principais estereótipos e como combaterO que é idadismo?

      O idadismo é uma forma de preconceito sofrida por pessoas por conta da idade, sobretudo em relação aos indivíduos mais velhos. O termo é uma tradução literal da expressão inglesa ageism, que significa prática discriminatória com base na idade.

      A discriminação etária pode ocorrer nos variados setores da sociedade e causar os mais diferentes tipos de consequências entre os indivíduos que são vítimas dessa intolerância, como o isolamento social.

      Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o idadismo tem três dimensões: estereótipo (pensamentos), preconceito (sentimentos) e discriminação (ações e comportamentos).

      Ainda de acordo com a entidade, em seu estudo Global Report on Ageism, o idadismo apresenta três níveis de manifestação (institucional, interpessoal e autodirigido) e conta com dois tipos de representação: explícita (consciente) e implícita (inconsciente).

       O termo “idadismo” é relativamente novo e, ao que tudo indica, foi usado pela primeira vez em 1969 pelo psicólogo norte-americano Robert N. Butler. Na ocasião, o conceito foi criado para tentar explicar as opiniões contrárias à construção de uma habitação para idosos em uma comunidade local.

      Butler não via nenhum motivo racional para que os moradores vissem com maus olhos o novo empreendimento. Afinal, os futuros vizinhos não apresentariam nenhum tipo de ameaça ao convívio social. Foi então que o psicólogo concluiu que a única razão para o descontentamento da vizinhança seria a idade dos novos inquilinos.

Na interpretação de Butler, os residentes do bairro acreditavam que, ao contar com esse tipo de imóvel na região, haveria uma desvalorização da área.

      A partir daí, o conceito de idadismo passou a ser usado em diversos outros contextose países para designar qualquer tipo de preconceito relacionado à idade, seja aos jovens, seja aos idosos.

Idadismo: o que é, principais estereótipos e como combater

      Por aqui, o idadismo se manifesta, sobretudo, em duas esferas muito importantes: a profissional e a pessoal. Tanto no mercado de trabalho quanto na vivência social é possível encontrar posicionamentos que reforçam a discriminação etária, como destacamos a seguir.

       É comum ver ótimos profissionais discriminados em vagas totalmente indicadas para os seus perfis por conta da idade -– ou por ser jovem demais ou experiente em demasia. No caso da falta de experiência, normalmente, se argumenta que se trata de um cargo que exige muitas responsabilidades e competências que só são conquistadas com o tempo.

      Já no segundo exemplo, é dito justamente o contrário: que a vaga pede um funcionário mais disposto a aprender, sem vícios e que seja capaz de executar múltiplas tarefas. Aqui, também é comum usar o conhecimento tecnológico como desculpa.

      Questões geracionais, como “um baby boomer não se encaixa no perfil, precisamos de um nativo digital”, acabam entrando na pauta. Outro fator que merece destaque no idadismo aplicado ao mercado de trabalho é o tópico salarial.

      Muitas vezes, idosos são preteridos em vagasporque as suas experiências custam mais caro do que as de um novato que está começando. A questão não é que a carreira não deva ser valorizada. Ela deve, mas não pode servir de desculpa para a não contratação de um profissional capacitado.

      Para finalizar, a última representação da prática discriminatória por conta da idade se dá ao respeito ou não da opinião alheia. Não raro, pessoas mais jovens são silenciadas ou têm os seus pontos de vista relegados a um segundo plano por causa da sua falta de experiência.

       Na vivência social, também é possível ver práticas de idadismo, muitas vezes, influenciadas por estereótipos criados. A visão de que o idoso é um ser frágil, que necessita de cuidados, por exemplo, nem sempre é uma atitude positiva, pois pode gerar dependência.

      Mesmo que feito com as melhores das intenções, por familiares amorosos, essa prática pode ser prejudicial. O ideal é tentar manter certo nível de liberdade para o idoso, deixando que ele possua a sua própria rotina, até quando isso for possível.

      Habitação, tecnologia, finanças e educação são áreas em que existem estudos que evidenciam a discriminação etária.  Um levantamento japonês mostrou que é mais complicado para os idosos conseguirem ter um imóvel depois de uma certa idade, devido aos contratos discriminatórios.

      O principal temor está relacionado às brigas com outros inquilinos por conta do excesso de barulho e aos problemas de segurança, como a maior possibilidade de incêndios, por exemplo.

      Por falar em segurança, essa pesquisa aponta que a falta de acessibilidade para idosos em habitações também é uma representação de idadismo.

       Quanto à tecnologia, os estereótipos são ainda mais claros. Os idosos são vistos como pessoas que não conseguem se adaptar aos lançamentos tecnológicos e não são consultados na criação de novos designs ou ferramentas.

      Já quanto aos produtos financeiros, se você é idoso no Brasil, ou em boa parte dos outros países do mundo, vai ter muita dificuldade de ter acesso aos serviços de crédito. Porque a idade é um fator de risco no cálculo de seguros, por exemplo. A margem para empréstimos e financiamentos também é menor se você já tiver cabelos brancos.

Uma prova disso vem do relatório do United Kingdom’s Financial Conduct Authority, que apontou que pessoas mais velhas tendem a ser vítimas de discriminação ao contratar serviços financeiros por conta da idade.

Retomar os estudos ou ingressar no ensino superior também é mais difícil para quem é mais velho. Seja pela falta de incentivo, seja pelo próprio idadismo autodirigido , a verdade é que o número de indivíduos que investem na educação depois de uma certa idade é baixo.

Idadismo: o que é, principais estereótipos e como combater

      No entanto, tudo começa com o chamadoidadismo autodirigido, que nada mais é que os sofredores do preconceito aceitarem os estereótipos a eles dirigidos. Por exemplo, uma pessoa de 20 e poucos anos que acha que é muito nova para determinada vaga e decide não se candidatar. Ou um indivíduo de 60 anos que se acha velho demais para aprender novas habilidades e desiste de prestar vestibular.

      O sentimento de exclusão, aliado às mudanças naturais na rotina provocadas pela chegada da idade, afetam negativamente as perspectivas de vida de pessoas mais idosas.

      Julgamentos de todos os tipos e o excesso de cuidado levam quem tem mais de 60 anos a perder ainda mais a autonomia com o passar do tempo

(publicado no site da FIA -– Fundação Instituto de Administração).

Corrigir a visão ruim

é bom para o cérebro

Um conjunto crescente de evidências sugere que quando o cérebro das pessoas mais velhas tem que trabalhar mais para ver, os declínios na linguagem, da memória, da atenção e muito mais podem vir em seguida.

        A prática médica tende a dividir seus clientes — você e eu — em especialidades definidas por partes do corpo: oftalmologia, neurologia, gastroenterologia, psiquiatria e afins. Mas, na verdade, o corpo humano não funciona por departamentos. Em vez disso, funciona como um todo integrado, e o que dá errado em uma parte do corpo pode afetar várias outras.

        Escrevi sobre o potencial dano da perda auditiva à saúde cerebral, bem como à saúde de nossos ossos, corações e bem-estar emocional.

        Perda auditiva não tratada pode aumentar o risco de demência. Mesmo aqueles com audição ligeiramente menos que perfeita podem ter déficits cognitivos mensuráveis.

        Agora, uma série crescente de pesquisas está demonstrando que a perda de visão pode afetar a função do cérebro também. Como na audição, se o cérebro tem que trabalhar muito duro para entender o que nossos olhos veem, pode afetar a função cognitiva.

        O último estudo, publicado no JAMA Network Open em julho, acompanhou 1.202 homens e mulheres de 60 a 94 anos por uma média de quase sete anos. Todos fizeram parte do Baltimore Longitudinal Study of Aging, e fizeram testes de visão e cognição a cada  quatro anos entre 2003 e 2019.

        Os pesquisadores descobriram que aqueles que pontuaram mal nos testes iniciais de acuidade visual – quão bem, por exemplo, eles podiam ver as letras em um quadro de acuidade visual a uma determinada distância – eram mais propensos a ter declínio cognitivo ao longo do tempo, incluindo déficits na linguagem, memória, atenção e a capacidade de identificar e localizar objetos no espaço.

        Outras questões de visão, como a percepção de profundidade e a capacidade de ver contrastes também tiveram efeitos deletérios sobre a capacidade cognitiva.

        A pesquisadora-chefe, Bonnielin Swenor, epidemiologista do Johns Hopkins Wilmer Eye Institute, disse que o novo estudo “adiciona-se à montagem de dados longitudinais mostrando que o comprometimento da visão pode levar ao declínio cognitivo em idosos”.

        Corrigir a visão ruim é bom para o cérebro.

        Para que você não pense que a relação é invertida — que o declínio cognitivo prejudica a visão — outro estudo de que o Dra. Swenor participou mostra que quando ambas as funções foram consideradas, o comprometimento da visão era duas vezes mais propenso a afetar o declínio cognitivo do que o contrário.

        Este estudo,  liderado por Diane Zheng, da Faculdade de Medicina da Universidade de Miami Miller, incluiu 2.520 adultos de 65 a 84 anos, cuja visão e função cognitiva foram periodicamente testadas. Ela e seus coautores concluíram que manter uma boa visão à medida que se envelhece pode ser uma maneira eficaz de minimizar o declínio da função cognitiva em idosos.

        “Quando as pessoas têm perda de visão, elas mudam a maneira como vivem suas vidas. Elas diminuem a atividade física e diminuem a atividade social, que são tão importantes para manter um cérebro saudável”, disse a Dra. Swenor. “Isso os coloca em uma aderência rápida ao declínio cognitivo.”

        Mas identificar e corrigir a perda de visão no início pode ajudar, disse a Dra. Zheng. Ela sugeriu exames oculares regulares — pelo menos uma vez a cada dois anos, e mais frequentemente se você tiver diabetes, glaucoma ou outras condições que possam danificar a visão. “Certifique-se de que você pode ver bem através de seus óculos”, ela pediu.

        ´Há dificuldades de visão que os óculos não corrigem”, afirma a Dr. Swenor, como a degeneração da mácula, ligada ao envelhecimento, e o glaucoma. Doenças da retina começaram a comprometer a visão da Dra. Swenor .quando ela tinha seus 20 anos. Pessoas com problemas como os dela se beneficiaram de algo chamado  reabilitação de baixa visão, uma terapia para os olhos que ajuda o paciente a se adaptar às situações normais e os faz funcionarem melhor.

        A Dra. Swenor, por exemplo, pode ver objetos em uma situação de alto contraste, como um gato preto contra uma cerca branca, mas tem dificuldade em ver a diferença entre cores semelhantes. Ela não pode derramar leite branco em uma caneca branca sem derramar, por exemplo. A solução: ela usa uma caneca de cor escura. Encontrar tais soluções é uma tarefa contínua, mas permite que ela continue funcionando bem, profissional e socialmente.

        A sociedade, também, precisa ajudar as pessoas com deficiência visual a funcionar em segurança fora de casa. A maioria das coisas nos hospitais são brancas, por exemplo, o que cria riscos de segurança para pessoas com menor sensibilidade ao contraste. Como motorista de 50 anos, notei que as barreiras rodoviárias que costumavam ser da mesma cor da superfície da estrada são agora mais frequentemente percebidas em cores de alto contraste, como laranja ou amarelo, o que, sem dúvida, reduz os acidentes até mesmo para pessoas que podem ver perfeitamente.

        “Precisamos criar uma sociedade mais inclusiva, que acomode pessoas com deficiência visual”, disse o Dr. Swenor.

        Pessoas que têm problemas com percepção de profundidade também podem incorporar recursos de design úteis em casa. Colocar tiras coloridas em degraus de escada, texturas variadas de móveis e objetos de codificação de cores pode melhorar a capacidade de navegar com segurança. As pessoas que não podem mais ler livros também podem ouvir audiolivros, podcasts ou música.

        A ligação entre deficiência visual e comprometimento cognitivo “não é uma mensagem do juízo final”, acrescentou. “Há muitas maneiras de promover a saúde cerebral para pessoas com perda de visão.”

        Enfim, o custo de uma única substituição do quadril resultante de uma queda prejudicada pela visão excederia o custo de muitas centenas de exames oculares para correções de visão. Jane E. Brody, em The New York Times.

“a ironia vem da dor” (Lima Barreto)

O coração ferido tem suas armas, nascidas no silêncio da ferida atual ou muito antiga. Elas estão esquecidas, insuspeitas, embrulhadas em algum papel ou pano atirados fora. Mas disparam sem aviso durante uma conversa banal e até mesmo alegre, viajam a bordo de uma lembrança que risca a mente ou atravessa o raciocínio. Saem da boca, ganham o mundo, trespassam o interlocutor e vão inocular veneno em tudo e todos. São inteligentes e divertidas, elogiadas, copiadas e transcritas. Brilham, e com isto ganham prêmios, antologias, respeito acadêmico e fama. Mas a dor…esta permanece, perfurando órgãos e enegrecendo sentimentos, que apenas no amor vão encontrar alívio.

Novos cursos tratam de negócios para o público 50+

Uma das mudanças sociais mais previsíveis na sociedade brasileira, o envelhecimento da população ainda não está no centro das estratégias de negócios das empresas. Muito se fala em diversidade em relação às temáticas de gênero, orientação sexual e etnias, mas pouco sobre a diversidade etária.      Uma das mudanças sociais mais previsíveis na sociedade brasileira, o envelhecimento da população ainda não está no centro das estratégias de negócios das empresas. Muito se fala em diversidade em relação às temáticas de gênero, orientação sexual e etnias, mas pouco sobre a diversidade etária.

      Cinco gerações estão presentes hoje no ambiente de trabalho, desde os baby boomers, entre 57 e 75 anos, até os nascidos nos anos 2000, que beiram 20 ou 21 anos.

      Esse entrelaçamento entre consumo, envelhecimento populacional e cultura organizacional multigeracional virou tema de dois cursos lançados recentemente por escolas de negócios no mercado brasileiro.

      Um deles é o Formação Executiva em Mercado de Longevidade, oferecido pela primeira vez neste ano pela Fundação Getúlio Vargas (FGV Educação Executiva). A turma inicial, de 26 alunos, está no meio da primeira disciplina, que discute o “oceano prateado”, nomenclatura que tem como referência o termo “oceano azul”, conceito de negócio apresentado em um livro de mesmo nome em 2005 e que se refere a mercados promissores e inexplorados.

      “É um trocadilho com ‘oceano azul’ porque o mercado da longevidade é um mar de oportunidades ainda pouco exploradas”, afirma Patrícia Riccelli Galante de Sá, coordenadora do curso Formação Executiva da Longevidade da FGV. Além de abordar o “mercado prateado”, o programa da escola discute marketing, comunicação e inovação para o público dos 50+, desenvolvimento de produtos e serviços para a faixa etária e como as empresas se preparam para lidar com a intergeracionalidade internamente.

      As disciplinas são ministradas ao longo de quatro meses em 64 horas de aulas que acontecem uma vez por semana. O público-alvo são gestores de diferentes áreas de negócio que querem se capacitar para começar a entender o mercado da longevidade.

      “O consumidor do futuro não é o ‘millennial’”, diz Patrícia. “Então, se a empresa quer preparar produtos e campanhas, além de políticas de RH, vai ter que se capacitar em longevidade, porque ele pede outro jeito de fazer as coisas.”

      Ela dá um exemplo prático. “No marketing, não passa na cabeça de um executivo jovem que há uma limitação cognitiva e motora de leitura de rótulos. Estudos já mostram o que é uma embalagem ‘age friendly’, com letras grandes ou diferenciação por cor.”

      Segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2060 a quantidade de pessoas com mais de 65 anos na população brasileira passará de cerca de 9% para 25,5%. Sendo assim, um em cada quatro brasileiros será idoso em poucas décadas. Em 2034, 15% da população terá mais de 65 anos.

      Na mesma linha do curso da FGV, chega ao mercado em 2021 um programa da ESPM. O Mercado da Longevidade no Topo da Agenda Estratégica terá a coordenação de Juliana Acquarone, especialista no mercado de longevidade, fundadora e diretora executiva da consultoria Mercado Sênior.

      Seu objeto de estudo consiste em como o fenômeno da longevidade impacta as relações entre marcas e consumidores. “Algumas mudanças precisam acontecer nas empresas para se trabalhar o mercado da longevidade de forma efetiva e inclusiva”, afirma Juliana. “Decidimos, então, levar essa temática para os cursos de extensão.”

      O programa da ESPM, que terá oito encontros, um por semana, com duas horas de duração cada, vai abordar quatro grandes temas. O primeiro pilar discutirá o impacto do envelhecimento populacional na parte cultural, demográfica e econômica. “Por entender que o tema é amplo e a mudança é estrutural, não dá para olhar só do ponto de vista econômico”, explica Juliana.

      A segunda temática debate o fato de que as empresas não estão orientando suas estratégias para esse público. “Por que o público sênior não está no centro da estratégia de consumo se ele é o que mais cresce e tem grande potencial?”, questiona a coordenadora, que usa a mesma expressão de Patrícia, da FGV. “É um oceano prateado, um mercado ainda pouco desenvolvido.”

      No terceiro módulo, o curso da ESPM entra no mercado de consumo e de trabalho como pilares interdependentes. “Não existe uma coisa sem a outra”, enfatiza Juliana. “E a intergeracionalidade nas empresas é um desafio.”

      A coordenadora do programa diz que os três primeiros tópicos abrem novas perspectivas e, depois disso, o curso termina olhando para práticas de marketing age friendly. O público-alvo do curso da ESPM são diretores de marketing, comunicação, inovação, trade marketing e de consumer insights de empresas de consumo, varejo e mídia.

      Com uma viés diferente, mas ainda focando no público 50+, a Trevisan Escola de Negócios lança, também em 2021, o curso Digital +. Nesse caso, o foco não são gestores que querem entender o mercado da longevidade. O público-alvo é justamente quem tem mais de 50 anos e quer repensar a própria carreira.

      “Algumas empresas têm a aposentadoria compulsória e, por conta disso, os profissionais passam por uma rotina diferente e esvaziamento de funções quando estão próximos a essa aposentadoria”, diz Renata Bianchi, diretora acadêmica da Trevisan Escola de Negócios. “É algo já conhecido, mas, quando chega o momento, alguns profissionais ficam perdidos sobre o que vai acontecer, por mais que a empresa dê suporte. Ele não sabe como agir.”

      A proposta do curso da Trevisan Escola de Negócios é oferecer ao aluno mentoria e conteúdos atrelados à transformação digital. “Não é para que ele saia dali um desenvolvedor, mas que, se tiver que tomar uma decisão, entenda por que o digital é importante na área que ele está”, diz Renata.

      O programa tem três pilares: mindset, para entender o novo momento da vida, tirando os preconceitos embutidos; conhecimento, que aborda o mundo dos dados, as metodologias ágeis e o marketing digital; e mentoring, que passa por autoconhecimento e o planejamento de carreira para os próximos anos. As primeiras turmas começam em abril de 2021e o curso terá 40 horas ao longo de três semanas.

      Referência quando o assunto é o público sênior, a Maturi nasceu como uma plataforma de empregos para as pessoas com mais de 50 anos e, com o tempo, passou a oferecer também cursos para esse mercado.

      Em julho do ano passado lançou a Maturi Academy, uma plataforma que oferece cursos on-line, artigos e outros conteúdos gravados e ao vivo no formato digital para o público 50+ que busca atualização e capacitação profissional tanto para empregabilidade quanto para empreendedorismo. Há conteúdos gratuitos e pagos.

      Mórris Litvak, CEO da Maturi, diz que a plataforma tem hoje 9 mil pessoas cadastradas, sendo que 2 mil já assistiram algum dos cursos, que passam por tecnologia, empreendedorismo, networking, ferramentas digitais, redes sociais, longevidade, validação de ideias, qualidade de vida, finanças e vendas.

       Cerca de mil pessoas são assinantes pagantes da Maturi Academy. Também no ano passado, em setembro, a Matury lançou o programa Vem 50+, um curso on-line para quem quer empreender nessa faixa etária. Segundo Litvak, cerca de 250 pessoas já fizeram o curso. (do Valor Econômico)

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Novos cursos tratam de negócios para o público 50+

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<p class="has-drop-cap" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">      Uma das mudanças sociais mais previsíveis na sociedade brasileira, o envelhecimento da população ainda não está no centro das estratégias de negócios das empresas. Muito se fala em diversidade em relação às temáticas de gênero, orientação sexual e etnias, mas pouco sobre a diversidade etária.      Uma das mudanças sociais mais previsíveis na sociedade brasileira, o envelhecimento da população ainda não está no centro das estratégias de negócios das empresas. Muito se fala em diversidade em relação às temáticas de gênero, orientação sexual e etnias, mas pouco sobre a diversidade etária.

      Cinco gerações estão presentes hoje no ambiente de trabalho, desde os baby boomers, entre 57 e 75 anos, até os nascidos nos anos 2000, que beiram 20 ou 21 anos.

      Esse entrelaçamento entre consumo, envelhecimento populacional e cultura organizacional multigeracional virou tema de dois cursos lançados recentemente por escolas de negócios no mercado brasileiro.

      Um deles é o Formação Executiva em Mercado de Longevidade, oferecido pela primeira vez neste ano pela Fundação Getúlio Vargas (FGV Educação Executiva). A turma inicial, de 26 alunos, está no meio da primeira disciplina, que discute o “oceano prateado”, nomenclatura que tem como referência o termo “oceano azul”, conceito de negócio apresentado em um livro de mesmo nome em 2005 e que se refere a mercados promissores e inexplorados.

      “É um trocadilho com ‘oceano azul’ porque o mercado da longevidade é um mar de oportunidades ainda pouco exploradas”, afirma Patrícia Riccelli Galante de Sá, coordenadora do curso Formação Executiva da Longevidade da FGV. Além de abordar o “mercado prateado”, o programa da escola discute marketing, comunicação e inovação para o público dos 50+, desenvolvimento de produtos e serviços para a faixa etária e como as empresas se preparam para lidar com a intergeracionalidade internamente.

      As disciplinas são ministradas ao longo de quatro meses em 64 horas de aulas que acontecem uma vez por semana. O público-alvo são gestores de diferentes áreas de negócio que querem se capacitar para começar a entender o mercado da longevidade.

      “O consumidor do futuro não é o ‘millennial’”, diz Patrícia. “Então, se a empresa quer preparar produtos e campanhas, além de políticas de RH, vai ter que se capacitar em longevidade, porque ele pede outro jeito de fazer as coisas.”

      Ela dá um exemplo prático. “No marketing, não passa na cabeça de um executivo jovem que há uma limitação cognitiva e motora de leitura de rótulos. Estudos já mostram o que é uma embalagem ‘age friendly’, com letras grandes ou diferenciação por cor.”

      Segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), até 2060 a quantidade de pessoas com mais de 65 anos na população brasileira passará de cerca de 9% para 25,5%. Sendo assim, um em cada quatro brasileiros será idoso em poucas décadas. Em 2034, 15% da população terá mais de 65 anos.

      Na mesma linha do curso da FGV, chega ao mercado em 2021 um programa da ESPM. O Mercado da Longevidade no Topo da Agenda Estratégica terá a coordenação de Juliana Acquarone, especialista no mercado de longevidade, fundadora e diretora executiva da consultoria Mercado Sênior.

      Seu objeto de estudo consiste em como o fenômeno da longevidade impacta as relações entre marcas e consumidores. “Algumas mudanças precisam acontecer nas empresas para se trabalhar o mercado da longevidade de forma efetiva e inclusiva”, afirma Juliana. “Decidimos, então, levar essa temática para os cursos de extensão.”

      O programa da ESPM, que terá oito encontros, um por semana, com duas horas de duração cada, vai abordar quatro grandes temas. O primeiro pilar discutirá o impacto do envelhecimento populacional na parte cultural, demográfica e econômica. “Por entender que o tema é amplo e a mudança é estrutural, não dá para olhar só do ponto de vista econômico”, explica Juliana.

      A segunda temática debate o fato de que as empresas não estão orientando suas estratégias para esse público. “Por que o público sênior não está no centro da estratégia de consumo se ele é o que mais cresce e tem grande potencial?”, questiona a coordenadora, que usa a mesma expressão de Patrícia, da FGV. “É um oceano prateado, um mercado ainda pouco desenvolvido.”

      No terceiro módulo, o curso da ESPM entra no mercado de consumo e de trabalho como pilares interdependentes. “Não existe uma coisa sem a outra”, enfatiza Juliana. “E a intergeracionalidade nas empresas é um desafio.”

      A coordenadora do programa diz que os três primeiros tópicos abrem novas perspectivas e, depois disso, o curso termina olhando para práticas de marketing age friendly. O público-alvo do curso da ESPM são diretores de marketing, comunicação, inovação, trade marketing e de consumer insights de empresas de consumo, varejo e mídia.

      Com uma viés diferente, mas ainda focando no público 50+, a Trevisan Escola de Negócios lança, também em 2021, o curso Digital +. Nesse caso, o foco não são gestores que querem entender o mercado da longevidade. O público-alvo é justamente quem tem mais de 50 anos e quer repensar a própria carreira.

      “Algumas empresas têm a aposentadoria compulsória e, por conta disso, os profissionais passam por uma rotina diferente e esvaziamento de funções quando estão próximos a essa aposentadoria”, diz Renata Bianchi, diretora acadêmica da Trevisan Escola de Negócios. “É algo já conhecido, mas, quando chega o momento, alguns profissionais ficam perdidos sobre o que vai acontecer, por mais que a empresa dê suporte. Ele não sabe como agir.”

      A proposta do curso da Trevisan Escola de Negócios é oferecer ao aluno mentoria e conteúdos atrelados à transformação digital. “Não é para que ele saia dali um desenvolvedor, mas que, se tiver que tomar uma decisão, entenda por que o digital é importante na área que ele está”, diz Renata.

      O programa tem três pilares: mindset, para entender o novo momento da vida, tirando os preconceitos embutidos; conhecimento, que aborda o mundo dos dados, as metodologias ágeis e o marketing digital; e mentoring, que passa por autoconhecimento e o planejamento de carreira para os próximos anos. As primeiras turmas começam em abril de 2021e o curso terá 40 horas ao longo de três semanas.

      Referência quando o assunto é o público sênior, a Maturi nasceu como uma plataforma de empregos para as pessoas com mais de 50 anos e, com o tempo, passou a oferecer também cursos para esse mercado.

      Em julho do ano passado lançou a Maturi Academy, uma plataforma que oferece cursos on-line, artigos e outros conteúdos gravados e ao vivo no formato digital para o público 50+ que busca atualização e capacitação profissional tanto para empregabilidade quanto para empreendedorismo. Há conteúdos gratuitos e pagos.

      Mórris Litvak, CEO da Maturi, diz que a plataforma tem hoje 9 mil pessoas cadastradas, sendo que 2 mil já assistiram algum dos cursos, que passam por tecnologia, empreendedorismo, networking, ferramentas digitais, redes sociais, longevidade, validação de ideias, qualidade de vida, finanças e vendas.

       Cerca de mil pessoas são assinantes pagantes da Maturi Academy. Também no ano passado, em setembro, a Matury lançou o programa Vem 50+, um curso on-line para quem quer empreender nessa faixa etária. Segundo Litvak, cerca de 250 pessoas já fizeram o curso. (do Valor Econômico)

Ver a velhice sob a ótica das humanidades traz esperanças

      “O médico que apenas sabe medicina, nem medicina sabe”, dizia o português Abel Salazar, que foi médico, artista plástico e crítico de arte.

      A compreensão do envelhecimento e o preparo para lidar com pessoas idosas exigem do profissional da saúde mais do que o domínio do conteúdo técnico dos tratados. Para o público leigo, o texto explicativo de cartilhas e afins não basta. Um olhar mais amplo se impõe para a percepção da experiência de ser idoso.

      As humanidades trazem uma contribuição essencial para reflexões sobre a velhice. São memoráveis as linhas traçadas por um Pedro Nava que se descobre velho perante o espelho em “Galo-das-Trevas” e descreve em detalhes alterações da anatomia do próprio rosto, em que um processo de desbarrancamento provocou a “queda dos traços e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente”.

      Ainda na literatura, o que dizer da aparição derradeira de Nathan Zuckerman, escritor criado por Philip Roth, em “Fantasma Sai de Cena”? O sátiro personagem, já septuagenário, acometido de uma incontinência urinária que o constrange, escolhe a ficção como meio para elaborar uma paixão inacessível. É o triunfo da imaginação sobre as insuficiências do físico.

      O cinema também é pródigo em possibilidades de exploração. “A Canção da Estrada”, do indiano Satyajit Ray, convida a um duro passeio pela velhice na pobreza, situação na qual as redes sociais e a solidariedade exercem papel fundamental.

      No âmbito europeu, o filme “Amor”, de Michael Haneke, desponta como um retrato cru da velhice rica contemporânea, marcada pelo distanciamento entre as gerações e pela sobrecarga do cuidador familiar.

      O diretor, em uma de suas provocações habituais, assina diálogos que mencionam um médico que jamais aparece. Ao negar ao médico o protagonismo esperado, a mensagem é clara: as respostas para a questão da velhice estão para além da intervenção profissional.

      A emoção aflora diante dos autorretratos de Rembrandt, sobretudo daquele pintado no ano de sua morte (1669), aos 63 anos. O artista sustenta o olhar do observador da tela, sem disfarçar rugas ou cabelos brancos, com expressão sóbria. Não há espaço para autocomplacência. Rembrandt limita-se a expor sua velhice como ela é.

      Ricardo Cruz, vítima da infame falta de responsabilidade com que se trata a pandemia no Brasil, era um entusiasta do ensino das humanidades, que também incluem antropologia e filosofia, entre outros campos do conhecimento.

      Elas apontam o caminho para que se exerça um necessário exercício de alteridade. Ao nos colocarmos no lugar da pessoa idosa, conseguimos entender e admitir o complexo panorama de (im)possibilidades associado à velhice. Somente a partir de então torna-se factível a prática do cuidado, via de mão dupla que envolve dois atores sociais.

      Fica a expectativa de que o ano que ora se inicia seja mais ameno que o torpe 2020. Sob os auspícios de Abel Salazar, com o tempero do olhar das humanidades, renovam-se esperanças de aliar competência técnica e disposição humanista no cuidado holístico que todas as pessoas idosas merecem receber.(Daniel Azevedo, Folha de S. Paulo)

Novos idosos chegam à velhice com mais doenças crônicas e limitações

 


​Os novos idosos paulistanos estão chegando à velhice com mais doenças crônicas e limitações do que os seus antecessores.

Em 16 anos, a taxa de diabetes na faixa etária de 60 a 64 anos pulou de 18% para 25%. E a de câncer quase triplicou: de 3% para 8%. Em 2000, 32% relatavam doença articular. Em 2016, foram 33%.

Esse cenário aparece em estudo da USP, o Sabe (Saúde, Bem-estar e Envelhecimento), que acompanha o envelhecer na cidade de São Paulo desde 2000. A cada cinco anos um novo grupo de idosos entra no estudo, que atualmente reúne um total de 1.540.

O trabalho faz parte de um projeto da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) que envolve sete centros urbanos no mundo –São Paulo, Buenos Aires (Argentina), Montevidéu (Uruguai), Santiago (Chile), Havana (Cuba), Cidade do México (México) e Bridgetown (Barbados).

A última avaliação ocorreu em 2016 e 2017, e os resultados preliminares foram divulgados em reunião na Câmara Municipal de São Paulo há duas semanas.

A pesquisa é desenhada com metodologia que permite representar toda a população idosa de São Paulo, estimada em 1,6 milhão de pessoas, ou 13% da população.

O aumento de doenças crônicas pode estar ligado a fatores comportamentais, como obesidade e sedentarismo, mas também está relacionado a mais acesso aos serviços de saúde e, consequentemente, a mais diagnósticos.

Porém, um indicador claro da piora do processo de envelhecer na capital é o crescimento da taxa de incapacidades entre os idosos de 60 a 64 anos, conhecidos como a geração dos “anos dourados”.

De 2000 a 2016, o índice de idosos com dificuldade de realizar atividades básicas, como tomar banho, ir ao banheiro, comer e se vestir sozinho, pulou de 10% para 16%.

Em relação às chamadas atividades instrumentais, como utilizar transportes, fazer compras e cuidar do seu dinheiro, a taxa passou de 23% para 36%.

De acordo com Yeda Duarte, pesquisadora da USP e coordenadora do estudo, 21% desses idosos jovens estão em uma situação de fragilidade, por exemplo, com fadiga, redução da força muscular e da velocidade da caminhada. São pelo menos 110 mil nessa situação.

“É muito preocupante essas pessoas estarem com tantas limitações. O retrato do idoso sarado, de bem com vida, que em geral aparece na mídia, representa poucos. Há muitos que já nem saem mais de casa”, afirma a pesquisadora.

Para ela, várias hipóteses podem explicar a situação, como a falta de políticas públicas voltadas ao envelhecimento e o fato de que esses idosos são de uma época em que não era costume discutir a promoção de saúde e a prevenção de doenças. 

“Fumar era chique, fazia parte da cultura. Poucas pessoas faziam atividade física. O resultado começa a aparecer agora”, afirma.

Também persiste a crença, inclusive entre os profissionais de saúde, de que as limitações são inerentes ao processo de envelhecimento. Isso resulta em intervenções tardias com potencial mínimo de reversão dessas fragilidades, segundo Yeda.

“Por problemas nas articulações ou fraqueza muscular, as pessoas vão restringindo as atividades e deixam de se locomover. Isso é muito preocupante porque elas ainda vão viver muitos anos com essas incapacidades físicas.”

A geriatra Maisa Kairalla, professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que não é incomum médicos não medicarem mulheres com osteoporose que estão na faixa dos 80 anos.

“Acham que não valem a pena porque, supostamente, a esperança de vida é de mais três ou cinco anos. Isso não é verdade. É possível amenizar os danos da doença”, diz ela, que também preside comissão de vacinação na SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia).

O geriatra José Elias Soares Pinheiro, professor da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), afirma que ficou surpreso com os resultados do estudo. “Isso não é esperado.”

Para ele, é preciso uma análise mais aprofundada para entender o que está acontecendo com esses idosos. “Nessa faixa etária, muita gente está no auge da vida profissional e econômica. Há ainda muita vida pela frente.”

Segundo o médico, muitas das limitações apontadas no estudo são decorrentes de doenças que podem ser controladas por mudanças de estilo de vida e uso de medicamentos que estão disponíveis na rede pública de saúde.

As mulheres são as que apresentam mais dificuldades paras atividades básicas e instrumentais: 19% e 42% respectivamente contra 12% e 25% de homens, segundo o estudo.

Com 60 anos recém-completados, Jacicleid de Araújo Ventura sente no corpo os efeitos do sedentarismo. Pesa 100 kg, quase o dobro do peso que tinha 30 anos atrás.

Com a obesidade vieram a hipertensão, a esteatose hepática (gordura no fígado) e os problemas de coluna, que dificultam a sua locomoção. Ela também tem osteoporose.

Jacicleid atribui o ganho de peso às três gestações que teve e aos dez anos que passou cuidando do marido com sequelas de um AVC (derrame).

“Parei de cuidar de mim. Tenho dificuldade para fazer exercício físico e adoro comer pão, massa. Cheguei a 138 kg. Com caminhadas, perdi 38 kg. Quero perder mais.”

Jacileid conta que tem várias amigas na faixa etária dos 60 anos com sobrepeso e diz que, na juventude, ninguém pensava em prevenção.

“Eu pesava 48 kg. Nunca imaginei que passaria dos 100. E muito menos que um dia iria envelhecer e precisava me preparar para isso.”

Nos próximos 12 anos, o número de brasileiros acima de 60 anos deve passar dos atuais 29,4 milhões (14% da população) para 41,5 milhões (18%).

Para a geriatra Maisa, o Brasil não está preparado para esse acelerado processo. “Não temos política pública voltada para a educação e prevenção dessas fragilidades. Envelhecer implica ter doenças, mas 15, 20 anos depois [dos 60 anos].”

O retrato do envelhecimento em São Paulo é ainda mais preocupante se levado em conta que os indicadores de saúde da capital costumam ser melhores em relação à média de outras regiões. 

“A realidade no resto do país é muito pior. Falta muito para o Brasil agregar mais qualidade de vida ao sexagenário, que ainda é um jovem”, diz a médica.(Claudia Colucci, Folha de S. Paulo)_

Bom sono favorece a saúde dos ossos

      Você sabia que sua formação óssea se dá enquanto você dorme? Isto mesmo! Sono de boa qualidade à noite é importantíssimo para a constituição de ossos fortes e saudáveis – além de livrá-lo da osteoporose.

       Como isto acontece? Bem, tudo tem a ver com o seu ritmo circadiano – que é o relógio interno de 24 horas que todos temos.

      Você tem ritmos circadianos que regulam todas as coisas no interior do seu corpo, como os hábitos alimentares, liberação de hormônios, flutuações na temperatura do corpo e outros. Um dos mais importantes é o seu ciclo de sono e vigília.

      Todos esses ritmos circadianos estão sincronizados segundo um cronômetro-chefe em seu núcleo supraquiasmático (SCN, na sigla em inglês), que é um emaranhado de cerca de 20 mil células nervosas situadas na parte do cérebro chamada hipotálamo.

       Pense em seu SCN como o maestro de uma orquestra em que todos os relógios individuais dos músicos batem em uniformidade. Há também genes que fazem parte do seu ritmo circadiano – e quase todas as células do seu corpo as tem, incluindo os osteoclatos (células que podem levar à quebra de ossos) e osteoblastos (as que formam o novo osso).

      Você também tem genes-relógios que são parte do seu ritmo circadiano – e quase todas as células do seu corpo as tem, incluindo osteoclastos e osteoblastos. Os genes-relógios do ciclo de dormir e acordar funcionam próximos de um hormônio de que você provavelmente já ouvir falar – que é a melotonina. Eles fazem você se sentir sonolento e outras coisas, como ajudar seu corpo a reconstruir ossos e também o metabolismo destes.

      Façamos um breve passeio dentro do seu corpo para ver como isto funciona…

      À noite, quando escurece, seus olhos sinalizam para o SCN que é hora de começar a se sentir mais relaxado. Daí, seu SCN sinaliza para que o organismo produza melotonina, e você vai para a cama e se prepara para o sono. É então que se inicia a produção óssea. Comunicando-se com os seus genes-relógios, a melotonina ajuda a suprimir o desenvolvimento dos osteoclastos e favorece a formação de osteoblastos. Além disto, ela faz aumentar a reposição dos ossos (enzimas essenciais e proteínas associadas à estruturação óssea).

      Quando você para e pensa em tudo quanto está acontecendo em seus ossos enquanto dorme, fica fácil concluir quão prejudiciais os distúrbios do sono podem ser. Uma pesquisa feita na Noruega avaliou 24.715 pessoas e descobriu que aquelas dentre elas que sofriam de insônia tinham risco 52% maior de apresentar osteoporose.

       Pessoas que trabalham à noite também sofrem de má saúde óssea, e é fácil ver por quê. Nestas, o processo natural circadiano de dormir e acordar é posto de cabeça para baixo! Os estudos mostram que trabalhar à noite e dormir durante o dia destrói o equilíbrio delicado da recuperação óssea noturna, o que leva a menor  densidade dos ossos. E os cochilos? Cochilos diurnos também podem aumentar as chances de fraturas dos ossos por conta da inversão do ritmo circadiano e interferência no ciclo de 24 horas do sono.

      Não há muito que se possa fazer nesses casos. Mantenha os mesmos horários de sono e de vigília. Torne sua cama quente, confortável, silenciosa, o quarto escuro. Procure dormir de 7 a 9 horas todas as noites. Abandone os cochilos. Assim, seus ossos agradecerão.