Ver a velhice sob a ótica das humanidades traz esperanças

      “O médico que apenas sabe medicina, nem medicina sabe”, dizia o português Abel Salazar, que foi médico, artista plástico e crítico de arte.

      A compreensão do envelhecimento e o preparo para lidar com pessoas idosas exigem do profissional da saúde mais do que o domínio do conteúdo técnico dos tratados. Para o público leigo, o texto explicativo de cartilhas e afins não basta. Um olhar mais amplo se impõe para a percepção da experiência de ser idoso.

      As humanidades trazem uma contribuição essencial para reflexões sobre a velhice. São memoráveis as linhas traçadas por um Pedro Nava que se descobre velho perante o espelho em “Galo-das-Trevas” e descreve em detalhes alterações da anatomia do próprio rosto, em que um processo de desbarrancamento provocou a “queda dos traços e das partes moles deslizando sobre o esqueleto permanente”.

      Ainda na literatura, o que dizer da aparição derradeira de Nathan Zuckerman, escritor criado por Philip Roth, em “Fantasma Sai de Cena”? O sátiro personagem, já septuagenário, acometido de uma incontinência urinária que o constrange, escolhe a ficção como meio para elaborar uma paixão inacessível. É o triunfo da imaginação sobre as insuficiências do físico.

      O cinema também é pródigo em possibilidades de exploração. “A Canção da Estrada”, do indiano Satyajit Ray, convida a um duro passeio pela velhice na pobreza, situação na qual as redes sociais e a solidariedade exercem papel fundamental.

      No âmbito europeu, o filme “Amor”, de Michael Haneke, desponta como um retrato cru da velhice rica contemporânea, marcada pelo distanciamento entre as gerações e pela sobrecarga do cuidador familiar.

      O diretor, em uma de suas provocações habituais, assina diálogos que mencionam um médico que jamais aparece. Ao negar ao médico o protagonismo esperado, a mensagem é clara: as respostas para a questão da velhice estão para além da intervenção profissional.

      A emoção aflora diante dos autorretratos de Rembrandt, sobretudo daquele pintado no ano de sua morte (1669), aos 63 anos. O artista sustenta o olhar do observador da tela, sem disfarçar rugas ou cabelos brancos, com expressão sóbria. Não há espaço para autocomplacência. Rembrandt limita-se a expor sua velhice como ela é.

      Ricardo Cruz, vítima da infame falta de responsabilidade com que se trata a pandemia no Brasil, era um entusiasta do ensino das humanidades, que também incluem antropologia e filosofia, entre outros campos do conhecimento.

      Elas apontam o caminho para que se exerça um necessário exercício de alteridade. Ao nos colocarmos no lugar da pessoa idosa, conseguimos entender e admitir o complexo panorama de (im)possibilidades associado à velhice. Somente a partir de então torna-se factível a prática do cuidado, via de mão dupla que envolve dois atores sociais.

      Fica a expectativa de que o ano que ora se inicia seja mais ameno que o torpe 2020. Sob os auspícios de Abel Salazar, com o tempero do olhar das humanidades, renovam-se esperanças de aliar competência técnica e disposição humanista no cuidado holístico que todas as pessoas idosas merecem receber.(Daniel Azevedo, Folha de S. Paulo)

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