Um interessante trabalho bibliográfico realizado e publicado na Internet por Silvana Sidney Costa Santos –profissional da área de cuidados com idosos – abordou com muita propriedade o envelhecimento, partindo de reflexões filosóficas produzidas ao longo da História.
Segundo ela apontou, na civilização Oriental, Lao-Tsé correlacionou a velhice à santidade e Confúcio defendeu a piedade filial. Na civilização Ocidental, Sócrates afirmou que a velhice não apresentava peso aos prudentes; Platão direcionou a velhice à paz e à libertação e Aristóteles afirmou serem os idosos não confiáveis. Cícero aconselhou encontrar o prazer na velhice e Sêneca defendeu a velhice enquanto processo natural.
Estas reflexões filosóficas apontam para a elaboração necessária, difícil, pertinente e individual do próprio processo de envelhecimento.
Entre os gregos antigos, a idade adulta começava propriamente no período de vida que eles chamavam de acme, quando a pessoa se encontrava no auge do seu vigor físico e intelectual. A acme se dava por volta dos quarenta anos de idade. É nesse momento que uma sabedoria começava a ser vislumbrada. Era todo um processo de aquisição de conhecimentos práticos (vivência) e teóricos, que se iniciava aí e só se completava na velhice. Podia-se ser sábio, por exemplo, seguindo-se os ensinamentos de Heráclito (c. 544-474 a.C.), um dos filósofos mais antigos que conhecemos.
“Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio”, dizia o filósofo, numa das frases mais conhecidas da história da filosofia (Heráclito, 2012, p. 141). O rio passa e corre para o mar, deixando o tempo todo de ser o mesmo; e também nós, ao sair do rio, já não somos os mesmos, já fomos modificados. Tudo flui, tudo se transforma, sempre.
Considerado o primeiro grande dialético pela tradição marxista, Heráclito é aquele que dirige o pensamento para o fato de que tudo no mundo é transformação. Sábio é aquele que reconhece essa lei do mundo, a lei da transformação. Tudo muda, tudo se transforma, o tempo todo. Mas ser sábio envolve ainda algo mais do que isso: todas as transformações são regradas; elas não ocorrem de qualquer forma, a qualquer momento, motivo pelo qual o mundo não é caótico. Há uma lei, uma lógica das transformações; há aquilo que ele chama de logos
. Que significa isso? Que, por exemplo, uma barra de ferro, no decorrer do tempo, transforma-se, não permanece a mesma, mas ela não se transforma numa borboleta ou num telefone celular. Dialeticamente, o mundo é transformação, mas, precisamente por ser movido pelo logos, podemos conhecer a história dessas transformações. Se é assim, os velhos estão mais aptos a adquirir essa sabedoria: tendo vivido grande parte de seu tempo de vida, o velho é aquele que viu tudo se transformar, que viu muita coisa perecer à sua volta, mas segundo uma lógica, segundo algo que permanece, que se conserva sempre, que é eterno, o logos.
Heráclito, contudo, alertaria os mais velhos contra uma tendência que está presente também entre idosos: o conservadorismo. É evidente que não há lugar para o conservadorismo no pensamento de Heráclito, já que isso se opõe precisamente à “lei do mundo”, ao logos, que determina estar tudo em processo de transformação.
Podia-se ser sábio também seguindo os passos de Sócrates (c. 469-399 a.C.), cujo principal ensinamento conhecemos: “Sei que nada sei”. Ser sábio é reconhecer nossa ignorância. Mas não para permanecer ignorante. Pelo contrário: justamente para sair, cada vez mais, em busca de conhecimento. Sobretudo de autoconhecimento, pois sabemos que Sócrates um dia foi afetado pela frase inscrita do frontispício do pórtico do templo de Apolo Delfo: “Conhece-te a ti mesmo”.
Sócrates fez desses dois ensinamentos — sei que nada sei; conhece-te a ti mesmo — o valor máximo de sua vida, tornando-se sábio à sua maneira. Testemunho disso foi sua serenidade diante da morte
É o caso, por exemplo, de Leandro Konder (2002, p. 8), que afirma não só que Heráclito “foi sem dúvida” o “pensador mais radical da Grécia antiga”, mas que o foi no “sentido moderno da palavra”. por imposição do tribunal de Atenas, que o condenou precisamente por ensinar uma sabedoria considerada subversiva para os valores da cidade.
Ora, quem melhor do que o idoso, que já viveu boa parte da vida que o constitui e que fez dele o que ele é, para reconhecer sua ignorância constitutiva e que, no entanto, o move para adquirir sempre mais conhecimento sobre si? Ou, então, podia-se ser sábio à maneira de Epicuro, que viveu aproximadamente entre 341 e 270 a.C. Na Grécia antiga, Epicuro foi talvez o primeiro a fundar uma escola em que eram aceitos não só os homens, mas também as mulheres, os velhos, as crianças, os escravos e até os estrangeiros. Sua máxima filosófica era: “O prazer é princípio e fim da vida”. Somos
movidos pela busca do prazer. Mas ser sábio será buscar e encontrar o melhor prazer de todos. O que é o melhor prazer?
Em Epicuro, é antes de tudo ausência de dor e de prazeres perturbadores (excessivos). Como é que se busca isso? Pelo filosofar, um “pensar sobre”.
O filósofo pergunta-se pela natureza do prazer (o que ele é) e pela qualidade do prazer (qual a melhor forma de prazer). Exercendo sua potência racional de pensar, o filósofo é também sábio quando, compreendendo que o prazer é “princípio e fim da vida”, não dá, no entanto, assentimento imediato aos prazeres (como o faz o hedonista), buscando antes compreender sua natureza e perguntando-se sobre qual o melhor prazer para o humano. A maneira de fazer isso é o próprio ato de filosofar, e Epicuro descobre nesse ato o prazer por excelência. Eis por que a ética epicurista do prazer faz um elogio à filosofia como algo inseparável da sabedoria e da felicidade:
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou já que passou a hora de ser feliz. (Epicuro, 2002, p. 21)
Aparece em Epicuro, possivelmente pela primeira vez, uma ideia que é a cara aos idosos: a de que o sábio é aquele que não teme a morte. Porque a morte, para o sábio, não é nada: quando ela chega, já não estamos; quando ainda estamos, ou somos, ela não chega. Ele afirmava que “todo mal e todo bem se encontram na sensibilidade: e a morte é privação de sensibilidade”.
Há em Epicuro um belo trecho que nos interessa aqui, particularmente: Não é ao jovem que se deve considerar feliz e invejável, mas ao ancião que viveu uma bela vida. O jovem, na flor da juventude, é instável e é arrastado em todas as direções pela fortuna; ao contrário, o velho ancorou na velhice como em um porto seguro e os bens que antes esperou cheio de ansiedade e de dúvida os possui agora cingidos com firme e agradecida lembrança. (Epicuro, 1973, p. 28)
Claro, toda a questão aqui é saber em que consiste exatamente uma “bela vida” e, sobretudo, como vivê-la antes que seja tarde demais. O importante é que a pergunta sobre como viver da melhor maneira possível –melhor para si e para o outro —, que está no centro das preocupações de todo aquele que busca a sabedoria, era o que movia o pensamento de muitos filósofos antigos, principalmente Epicuro.
A busca da sabedoria como elemento central do trabalho filosófico é o grande legado epicurista e encontra-se no cerne do trabalho dos chamados filósofos helenistas, dentre os quais se destacam os estoicos, como Sêneca, Epiteto, Marco Aurélio, Lucrécio, Cícero e outros. Para eles, o cosmo e a natureza comportavam uma lógica, uma ordenação intrínseca do mundo.
Sábio é aquele que segue a natureza e, com isso, segue sua própria natureza, pois esta é fruto imanente daquela. E ele faz isso através do uso da razão. Nos estoicos, a razão é capaz de controlar aquilo que chamavam de doenças da alma: as paixões. Por exemplo, a natureza e a natureza do meu corpo são de tal forma que geram a necessidade, no meu corpo, de ingestão de certos alimentos. Quais alimentos, de que forma comê-los e em qual quantidade é algo que depende tanto da natureza das coisas quanto da do meu corpo.
Mas é a paixão que gera na alma uma doença que faz com que eu deseje mais do que é necessário ou outras coisas que não me são necessárias. Esse desejo vai contra a natureza: ele é excessivo, de um lado, e equivocado, de outro, pois embora eu necessite de alimentos, não preciso de uma quantidade desmedida, nem de alimentos sofisticados. Quem combate essa doença? A razão, porque por ela eu conheço as coisas e a mim mesmo tal como elas são e tal como eu sou, levando-me a desejar somente o necessário.
Não interessa, aqui, investigar e analisar o quanto essas éticas — socrática, epicurista, estoica etc. — são ou não consistentes, ou o quanto elas seriam úteis, aplicáveis e exequíveis em nossa época. O que importa é frisar que elas marcaram um período da história em que o conhecimento era inseparável da busca de uma sabedoria de vida, da busca da melhor maneira possível de viver bem neste mundo, consigo mesmo e com o outro.
Esse caráter inseparável entre conhecimento e sabedoria ainda estava presente em muitos pensadores cristãos da Idade Média. Contudo, é o estatuto do conhecimento que muda, no período medieval. Ser sábio não será mais propriamente conhecer, nem alcançar aquele conhecimento que só uma experiência de vida pode proporcionar. Será antes de tudo ter fé.
A revelação bíblica torna-se o repositório de toda sabedoria, bastando crer para ser sábio. Crença em quê? Sobretudo numa salvação que só se completa após a morte, quando a alma está inteiramente liberta do corpo e do mundo pecaminoso que o abriga.
A sabedoria cristã será, portanto, uma sabedoria do além, do post mortem. A ideia de sabedoria dos antigos estava ligada a uma valorização da vida e desta vida, deste mundo, e por isso mesmo era importante saber viver, viver bem.
. Já no cristianismo medieval, sabedoria se torna saber sofrer e saber morrer. Pode-se mesmo dizer que importava antes ser santo do que ser sábio, uma vez que a santidade encerrava uma ética piedosa (religiosa) capaz de oferecer a salvação do espírito. O que interessa, de fato, ao cristianismo, não é uma sabedoria de vida, mas uma salvação da alma que só pode se realizar de fato no além, num outro mundo, porque este mundo é, inerentemente, lugar de pecado.
É certo que estamos falando aqui de um cristianismo tradicional, no qual o mundo que realmente interessa é o do além, o reino de Deus, o reino dos céus. É aí que é preciso entrar e para isso se requer não certamente a antiga sabedoria, mas a sabedoria piedosa, do fiel, que rejeita esse mundo e esse corpo, porque o corpo e o mundo são lugares do pecado desde a queda de Adão.
É, portanto, muito difícil falar em sabedoria no cristianismo. Mas se considerarmos que há uma “sabedoria cristã” do fiel que aprende a sofrer e aprende a morrer, então podemos dizer que também aqui os mais velhos levam vantagem: eles sabem melhor do que os jovens o quanto o mundo tem de sofrimento e morte, pois, mais do que eles, experimentaram o caráter inerentemente perecível das coisas e pessoas amadas com um amor incapaz de reter ad æternum o objeto amado.

Conhecimento, tecnologia e capitalismo

  • Os medievais, todavia, podiam sonhar com uma vida boa, tranquila e sábia, ainda que isso fosse uma recompensa adquirida somente após a morte, após a velhice. A modernidade vem trazer a quase impossibilidade de qualquer sabedoria, mesmo na idade avançada. Na modernidade ocorre algo inquietante no campo do saber. A entrada em cena do conhecimento científico vai determinar uma separação que antes não havia: a separação entre conhecimento e erudição, de um lado, e sabedoria, de outro, sendo que esta ocupará agora um lugar muito menor no universo cultural.
    É verdade que em um filósofo moderno como Espinosa (1632-1677), no século XVII, podemos ainda encontrar, em sua “ética da felicidade”, uma perfeita junção entre conhecimento rigoroso (matemático, geométrico) e sabedoria. Mas Espinosa é quase uma exceção moderna…
    Antes dos modernos, a sabedoria era um valor maior, e todo conhecimento era buscado de maneira inseparável dela. Um alimentava o outro: quanto mais sábio, mais apto ao conhecimento; quanto mais conhecedor, mais perto da sabedoria. A modernidade separa as duas coisas. O conhecimento se fragmenta em especialidades, tornando-se igualmente mais técnico.
    Quando, a partir do Renascimento, a física se separa da cosmologia medieval, a astronomia se separa da astrologia; a matemática, da numerologia; a química,
    da alquimia etc., o campo do saber se divide em várias áreas especializadas e o conhecimento se torna cada vez mais assunto de cientistas alocados em diferentes metiers.
    Não foi a especialização dos saberes, entretanto, o que mais determinou o fim ou pelo menos a quase impossibilidade de se pensar e praticar qualquer
    forma de sabedoria, a partir da modernidade. O fator mais decisivo veio de fora da esfera do saber: originou-se do campo econômico.
    O advento da modernidade não se deveu apenas ao trabalho de filósofos e cientistas empenhados em construir conhecimentos racionais e científicos libertos do jugo da teologia judaico-cristã. Ela é também, como sabemos, uma transformação no campo econômico. É o advento do capitalismo.
    É tão impensável conceber o estatuto do saber, na Idade Média, sem as influências do campo da religião e da ideologia judaico-cristã, quanto conceber o conhecimento, na modernidade, sem as determinações do campo econômico — vale dizer, do capitalismo. O capitalismo muda toda a história do saber, sobre determinando aquela separação entre conhecimento e sabedoria.
    Sabemos que o tipo de conhecimento que mais tem valor social e cultural, em nossa época, é o científico. Contudo, o que dá valor e legitimidade às ciências não é apenas seu grau de exatidão ou sua capacidade de previsão dos fenômenos naturais. Mais do que isso, talvez sejam os produtos práticos da ciência o que mais lhe confere valor social. Quando, da física, da química ou da biologia, derivam artefatos tecnológicos, elas ganham mais reconhecimento social.
    O desenvolvimento tecnológico é inseparável do trabalho científico porque as ciências dependem das comprovações empíricas de suas teorias. Precisamente do trabalho empírico de comprovação de teses e hipóteses derivam — às vezes por mera casualidade — as novas tecnologias. Ocorre que o capitalismo é igualmente inseparável do desenvolvimento tecnológico, como Marx nos mostrou. Há, portanto, uma ligação quase intrínseca entre capitalismo e ciência.
    Essa é a principal novidade moderna. E isso muda tudo. Realmente, sabemos que Karl Marx mostrou que a causa real do lucro é a extração da mais-valia, o tempo de trabalho não pago ao trabalhador. atos de negação do capital — atos nos quais se exprime o desejo de vida contra o desejo de morte.

 

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