Tecnologia patina ao tentar monitorar idosos

Do New York Times

Naturalmente à frente de outros países, os Estados Unidos já começam a acumular  alguma experiência no uso de aparelhos eletrônicos de monitoramento de idosos. Pode-se dizer que no país há um mercado ativo nesse setor, muita inovação e competição ferrenha.  O público consumidor americano é confrontado, com muita frequência, com folhetos e anúncios de produtos de tecnologia para adultos mais velhos.

Há robôs revolucionários para treinar o andar, aparelhos de respostas de emergência para prever quedas, sistemas de telefone residencial e tabletes que transformam o modo como os idosos mais velhos se comunicam com seus entes queridos.

No entanto, tanta novidade convive, infelizmente, com a constatação atual de que a tecnologia ainda não satisfaz as expectativas dos idosos ou de seus familiares.

Há muitas histórias de idosos enfraquecidos que tiram seus pingentes de emergência (aparelhinhos pendurados no pescoço, usados para chamar por ajuda em caso de necessidade) quando vão para a cama e, depois, se vão ao banheiro no escuro, caem e não conseguem pedir socorro.

Descobriu-se, até, que um senhor de 90 anos guardava na geladeira seu pingente, nunca usado.

Empreendedores se esforçam para desenvolver plataformas, aplicativos e aparelhos para ajudar idosos a administrar sua saúde, viver independentemente e manter seus vínculos familiares e sociais. Tal indústria recebeu o nome de silvertech — tecnologia para grisalhos.

Stephen Johnston é cofundador da Aging 2.0, que liga empresas de tecnologia ao setor de cuidados para idosos. De acordo com suas estimativas, nos últimos três anos 1.500 startups de silvertech surgiram no mundo.

Dois desenvolvedores, em especial, quintuplicaram  o interesse dos empreendedores americanos neste ramo de negócios, disse Laurie Orlov, analista de negócios que escreve no blog Aging in Place Technology Watch.

Meses atrás, uma startup chamada Honor, que encontra cuidadores recomendados para idosos, levantou US$ 20 milhões em capital de investimento junto a investidores do Vale do Silício. “Isso deu a organizações de vários tipos a esperança de terem potencial de mercado”, disse Orlov.

Além disso, o Medicare, o seguro-saúde estatal americano, ampliou os tipos de monitoramento remoto cobertos pelo sistema oficial. Para Orlov, com o tempo o monitoramento à distância passará a ser “a solução para manter as pessoas fora de emergências hospitalares e lares para idosos”.

O geriatra Ken Covinsky, da Universidade da Califórnia em São Francisco, é contatado com frequência por empreendedores do Vale do Silício com ideias grandiosas. Ele se tornou, em certa medida, cético.

“É um esforço incrivelmente bem-intencionado”, ele disse. “Mas eles partem de premissas que não condizem com os problemas que nossos pacientes e suas famílias enfrentam.”

Por exemplo, os tecnólogos parecem fascinados com o monitoramento contínuo de idosos, usando sensores que transmitem informações sobre quando se levantam, saem de casa ou abrem a geladeira.

Deixando de lado a questão de se os idosos gostam desse monitoramento, Covinsky acha que a presença de um cuidador habilitado por uma ou duas horas por dia faria mais bem a eles.

“Eles não precisam necessariamente que alguém saiba quando eles abrem a porta da geladeira”, disse. “Precisam de alguém que lhes prepare ou leve uma boa refeição.”

O monitoramento remoto — da pressão arterial, por exemplo — também pode provocar problemas. Sempre ocorrem falhas, e “às vezes as iniciativas tomadas com base nesses dados levam a um excesso de tratamento que faz mais mal do que berm”, disse Covinsky.

O design terá um papel crucial na utilidade que os consumidores podem identificar nesses produtos. No entanto, com algumas exceções — o telefone Jitterbug, por exemplo –, muitos dos produtos criados até agora para idosos fracassaram.

Às vezes, são complexos demais, difíceis de serem usados por pessoas com demência. Nem sempre a tecnologia traz a solução para um problema.

“Meu receio é que, se você faz a pessoa ter consciência o tempo todo de que pode adoecer, ela pare até de andar”, disse Covinsky.
Felizmente, os desenvolvedores estão começando a ouvir  seus consumidores potenciais. “Muitas startups que querem mudar o mundo são comandadas por jovens de 25 anos que não sabem muita coisa sobre o que é ter 85”, disse Johnston.

Para quem tem dificuldade em distinguir entre tecnologia útil ou não, o United Hospital Fund acaba de publicar o manual online A Family Caregiver’s Guide to Electronic Organizers, Monitors, Sensors, and Apps, que relaciona questões a serem analisadas  antes de se comprarem produtos e serviços eletrônicos.

Provavelmente, não há nada melhor que discutir com o usuário pretendido os produtos que se busca  adquirir. Mesmo que um idoso que mora sozinho não goste da ideia de um sistema de sensores, pode achar isso aceitável, se a alternativa for ter de sair da casa onde vive há anos. (Paula Span)

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