Lições de uma mulher desiludida

Simone (Lucie-Ernestine-Marie Bertrand) de Bea...

Simone (Lucie-Ernestine-Marie Bertrand) de Beauvoir  – 100 anos (Foto: * starrynight1)s.

Na era das celebridades instantâneas e fugazes (e vazias) não deixa de ser difícil compreender como uma dupla pôde obter a fama e manter-se célebre (com consistência) por mais de 50 anos.Pois foi o caso de Simone de Beauvoir e de seu companheiro, Jean-Paul Sartre. Ela, escritora e ensaísta de peso; ele, escritor, dramaturgo e um dos mais importantes filósofos do século passado.

Do relacionamento entre eles, a história conservou a aura mítica de seus engajamentos políticos e sociais e o protótipo de uma relação sentimental aberta. Companheiros por décadas, Sartre (1905-80) e o Castor, o apelido com que tratava Beauvoir (1908-86), viajaram juntos pelo mundo, mas jamais compartilharam o mesmo teto em Paris, onde viviam.

E, mesmo que um escutasse e solicitasse do outro comentários e avaliações dos próprios escritos, a influência de fato foi afetiva e sentimental. Tal como valia para a vida, a regra “juntos, mas não sob o mesmo teto” aplicava-se com rigor também às respectivas obras.

No caso de Beauvoir, que aqui é o que interessa, sua produção literária e ensaística amplia-se e repercute após a Liberação, com o fim da Segunda Guerra e da ocupação nazista da França.

Seu texto mais difundido, “O Segundo Sexo”, data de 1949. Não muito depois, em 1954, ela é agraciada com o Goncourt (o mais importante prêmio literário francês) por “Os Mandarins”.

Em seus escritos, como de praxe nos representantes do chamado existencialismo francês, vida e obra formam um amálgama.

Não se deve confundir, porém, a incorporação literária de biografemas por esses autores com o exercício da autoficção, hoje difundido numa certa literatura.

Àqueles interessava transmitir, por meio do texto, um “estar no mundo”, uma experiência que passa necessariamente pelo sujeito (que a vive e a expressa para outros sujeitos que prezam a vida do ponto de vista de seus compromissos, dívidas e angústias). Enquanto aos praticantes da modalidade exibicionista da autoficção o mundo não interessa além do próprio umbigo.

As três novelas reunidas no volume “A Mulher Desiludida” tomam a fundo essa prioridade do vivido. Ademais, seus temas incorporam de maneira mais fluida as teses biográficas (no sentido de relativas à vida, não apenas à pessoa) expostas por Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo” e em “A Velhice” (publicado em 1970, dois anos apenas após “A Mulher Desiludida”).

O título da primeira novela, “A Idade da Discrição”, flerta com o célebre romance “A Idade da Razão”, de Sartre. Nela, uma senhora ensaísta dialoga com a vida passada e o cinzento futuro anunciado com a chegada do que hoje se chama “terceira idade”.

O ponto de confluência é a crise: do corpo cansado, da obra superada e da paixão realizada. Mas não se trata de crise que prenuncia a ruína e, sim, de um fracasso capaz de renovar a esperança. Beauvoir resume ambiguamente ao citar a fórmula de Sainte-Beuve: “Endurecemos em alguns lugares, apodrecemos em outros, não amadurecemos nunca”.

Na segunda novela, “Monólogo”, trata-se de uma operação de vingança realizada por meio da escritura. A estrutura é a do fluxo de consciência e, com ele, a pontuação caótica permite vazar sem pudores a fúria de uma anti-heroína que acusa a vida de não tê-la permitido viver. Sublime!

A terceira novela, que dá título ao volume, toma do diário sua forma. E capta, através das grades da prisão subjetiva, o drama de uma mulher abandonada pelo marido por outra. Em sua obsessão, emerge a confissão de uma servidão voluntária, da submissão a ideais femininos que Beauvoir se aprimorou em destruir.

Pois, de “O Segundo Sexo” a “A Cerimônia do Adeus”, o empenho principal de Beauvoir foi o de construir uma nova identidade, sobretudo feminina, mas comum a todos na exigência da liberdade.

Coisas boas que ninguém te diz sobre envelhecer

 

            Não adianta ter idade se com ela você não ficar mais astuto, nem deixar de lado a ideia de que envelhecer significa o fim do mundo, mas, em vez disto, entender que a vida é uma jornada com lições e experiências recheadas de êxitos e fracassos.         

            O que  ninguém te diz é que esse acúmulo de conhecimentos – e como utilizá-los – transforma esses anos tardios  em “anos de ouro” porque, ao envelhecer, você ganha novas divisas, como as dos militares. Se estas, porém, não forem usadas para o bem, então você não terá compreendido o que é envelhecer.     

            Veja onze coisas boas que ninguém te diz sobre envelhecer.

1. Você não precisa estar sempre certo(a).

            Lembra que, quando você era jovem, era tão importante estar certo(a)? Bem, com o passar dos anos, nós começamos a entender que estar certo não é tão importante quanto ouvir e avaliar todos os lados de um argumento, mesmo que você não concorde com o ponto de vista do outro. Nós começamos a entender que muitas vezes é melhor perder algumas batalhas para, no final, vencer a guerra.

2. Você aprende a não julgar.

No mundo ocidental, cedo aprendemos a desejar os bens materiais e a lutar para tê-los. Embora isto não seja necessariamente mau, tais coisas muitas vezes vêm acompanhadas de inveja e ciúme. Somos tentados a julgar os outros por seus bens materiais em vez de vê-los como são como pessoas. Quando envelhecemos, as “coisas” se tornam menos importantes do que as pessoas e os relacionamentos. Também aprendemos a não julgar, e aceitar as pessoas como são.

3. Você passa a querer menos coisas

Acumulamos tantas “coisas” na caminhada pela vida, repetidas e em quantidade muito maior do que precisamos. Ao envelhecermos começamos a perceber que frequentemente menos é mais. Entendemos então que não precisamos nos cercar de tantos bens materiais.

4, Você confia mais nas próprias decisões.

É verdade que a idade nos torna mais sábios. E também mais confiantes. Por que? Porque acumulamos Experiência (com letras maiúsculas), e as lições que já aprendemos são úteis quando se trata de decidir. Sim, podemos cometer erros, mas aprendemos com eles, que se transformam em confiança inata nas futuras decisões.

 

5. Seus filhos tornam-se seus amigos.

É difícil pensar em nossos filhos como amigos quando eles dependem de nós ou quando ainda são rebeldes ou mesmo quando nos detestam na adolescência. O que ninguém nos conta é que quando se tornam adultos, passam a cultivar sonhos e nós ocupamos papéis diferentes em suas vidas. As crianças, assim, voltam para casa e passam a agir como indivíduos e como nossos amigos.

6. Você entende, afinal, que não adiantapha143000076 dizer aos outros o que fazer.

Em algum estágio de sua vida você deve ter sentido que seria urgente oferecer conselhos não solicitados e que estaria fazendo um favor a alguém. Com uma certa idade, chega a hora em que você percebe que não vale a pena  dizer aos outros o que fazer, nem que seja legal ouvir conselho que você não pediu. O que é uma ideia legal, no entanto, é que alguém plante uma semente que o faça raciocinar e encontrar por você mesmo a resposta certa;

7. Você aprende que rugas devem ser exibidas com orgulho.

Para mulheres, especialmente, o surgimento das primeiras rugas provoca tristeza, pois nos anos de juventude, um rosto livre de rugas é falsamente visto como pré-requisito de beleza por nossa sociedade centrada na juventude. Mais tarde, entendemos que somos felizes por envelhecermos e que as rugas são testemunhas de nossa experiência. Mostram que percorremos com sucesso os altos e baixos da vida. Rugas expressam cada dia de nossa vida. Cada uma conta uma história.

8. Você se torna capaz de tratar a família com respeito incondicional.

Nossos pais, embora os amemos, nos deixaram loucos em algum momento, e para alguns de nós, com os próprios filhos, o mesmo padrão se repetiu. Quando envelhecemos aprendemos como tratar nossas mães e pais, com respeito, e ter paciência quando eles se tornam bem idosos, porque adquirimos compreensão em relação às provas e tribulações pelas quais passaram no processo de envelhecimento.

9. Tudo bem fazer-se passar por bobo novamente.

Quando crianças, nós nos divertíamos e fazíamos palhaçadas sem pensar muito no que os outros pensavam de nós. Depois o ego se desenvolveu, a consciência tomou o timão de nossos atos e passamos a controlar a criança interior e abafamos nossa parte idiossincrática que antigamente nos fez tão espontâneo. Quando atingimos certa idade, passa a ser menos importante o que outros pensam e não nos tomarmos tão a sério tornou-se uma opção novamente.

10. Você aprende a não criticar.

Ao envelhecermos, aprendemos o pouco valor que críticas a alguém  nos dão. Se devemos dizer algo, é muito melhor que seja positivo do que se ocupar com o negativo. Na meia idade aprendemos por tentativas e erros que afirmações positivas nos deixam em uma posição muito melhor.

11. Você se torna grato por envelhecer.

Nem todo mundo envelhece. Muitos morrem antes do tempo ou ainda na infância. A idade traz consigo a gratidão e a consciência de que cada ano vivido é um privilégio. E ser grato torna-se um ritual que fortalece nossas vidas de forma positiva.

 

A Oração de Clarice

“Faze com que eu sinta que a morte não existe porque na verdade já estamos na eternidade, faze com que eu sinta que amar é não morrer, que a entrega de si mesmo não significa a morte, faze com que eu sinta uma alegria modesta e diária, faze com que eu não Te indague demais, porque a resposta seria tão misteriosa quanto a pergunta, faze com que me lembre de que também não há explicação porque um filho quer o beijo de sua mãe e no entanto ele quer e no entanto o beijo é perfeito, faze com que eu receba o mundo sem receio, pois para esse mundo incompreensível eu fui criada e eu mesma também incompreensível, então é que há uma conexão entre esse mistério do mundo e o nosso, mas essa conexão não é clara para nós enquanto quisermos entendê-la, abençoa-me para que eu viva com alegria o pão que eu como, o sono que durmo, faze com que eu tenha caridade por mim mesma pois senão não poderei sentir que Deus me amou, faze com que eu perca o pudor de desejar que na hora de minha morte haja uma mão humana amada para apertar a minha, amém”.
Clarice Lispector, em Luminescência, texto da obra “Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres” (1969).

Ótimas atividades para aposentados

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Buscando boas ideias de atividades para sêniores?

Há todo tipo de possibilidades. Aqui vão algumas ideias interessantes para qualquer orçamento, acompanhadas de links, abaixo, que indicam mais opções.

Quando meu pai veio viver comigo, ele já estava aposentado há muito tempo. Tinha problemas sérios de visão e audição, por isso não podia participar de muitas atividades sem auxílio. Assim, me pus a buscar novas opções de ações para aposentados, pensando não só nele, mas até para mim, no futuro. Além disso, muitos dos meus amigos também já começavam a se aposentar.

O que eu gostaria de fazer quando me aposentasse? Como eu ficasse muito em casa para cuidar de meu pai em tempo integral, eu já me sentia mesmo meio aposentado. Eu fazia meu trabalho profissional de casa e queria continuar trabalhando após a aposentadoria. Assim, descobri algumas maneiras diferentes do que fazer.

Eis algumas das coisas que encontrei:

Escolha ideias de atividades que o deixem ocupado, com a mente ativa, mesmo com pequenas coisas.

Não fique parado.  Mantenha-se  motivado a fazer algo novo. (Meu pai com certeza teve de fazer isto quando perdeu quase toda a visão e audição). Ou estabeleça uma meta a ser alcançada. Não há nada que se compare a uma meta, mesmo que pequena, para despertar a imaginação.

O tipo de atividade que você escolherá depende de fatores como interesse, saúde física, mobilidade, saúde mental, orçamento etc. Mas quaisquer que sejam as circunstâncias, há muita ação para se escolher.

Atividades ao ar livre

Desligue a TV e saia! Você pode argumentar: “Eu não sou rueiro”, mas isso não é desculpa. Saia e respire um pouco de ar puro. É fácil simplesmente dar uma volta pelo quarteirão ou ir a um clube nas redondezas e se perguntar o que você poderia fazer ao ar livre.

  • Se você não tiver um jardim ou quintal, pode usar qualquer boa área defronte à sua janela favorita, levar para lá uma mesa estilo jardim, algumas cadeiras, plantas em vasos ou penduradas, um mobile. Seu “jardim interno” terá várias utilidades além da aparência de um jardim dentro de casa.
  • Se tiver jardim ou quintal, crie um recanto florestal, mesmo que pequeno, ainda que seja numa floreira de janela. Uma estufa pode ajudá-la a escolher algumas espécies de plantas e flores fáceis de cuidar. Talvez um bonsai?
  •  Se for possível, entre para um clube. É muito mais divertido participar de atividades com outros idosos ou pessoas de todas as idade. Assim, será mais fácil dar continuidade a seus esforços. Jardinagem, caminhadas ou mesmo ciclismo são atividades ideais. Algo de que você sempre gostou, ou então alguma coisa nova para experimentar. Do tipo pescar ou navegar, ou ambos. Meu pai chegou a fazer esqui aquático aos 84 anos!
  • Exercícios para idosos preenchem o tempo e, claro, são importantes para manutenção em funcionamento das articulações, dos ossos e do coração forte. Que tal uma bicicleta? Há programas para idosos com esta atividade tão saudável!
  • Ou talvez apenas a prática de caminhadas. Muitos médicos consideram ser esta, entre todas, a melhor atividade para idosos. O médico de meu pai incentivou-o a caminhar todos os dias, mesmo quando ele já tinha mais de 90 anos.
  • Planeje fazer piqueniques e festas ao ar livre. Elas podem ser combinadas com outras celebrações –ciclismo, caminhadas, jardinagem, reuniões de grupos. Se você não tiver um cachorro, ajude um amigo que tenha um e leve o animal para passear regularmente.

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Land of the Free, Home of the Gray

Envelhecer não é mais como antes.

       Ao menos nos Estados Unidos, como Bob Lowry descobriu recentemente ao tomar o caminho do que muitos consideram uma aposentadoria precoce em 2001, aos 52 anos. Lowry deu adeus ao emprego de dirigente de uma empresa de consultoria para emissoras de rádio.

       Sua mulher, Betty, deixou o trabalho de professora em seguida e ambos passaram a imaginar o que exatamente fazer da vida dali em diante.

        Mas a aposentadoria – e principalmente envelhecer – não se mostraram exatamente o que o casal esperava. De fato, apesar dos esforços para transmitir aos leitores de seu blog Aposentadoria Satisfatória, Lowry descobriu que há muita confusão sobre o que realmente significa envelhecer no século 21.

        O maior equívoco é o de que aos 65 o americano médio se aposenta e vai para a Florida. “Isto se dava com a geração anterior à minha. Muito poucos de meus leitores” – ele diz – “se contentam em ficar sentados em uma cadeira de jardim e jogar golfe o dia inteiro.”

        Ele optou por permanecer em Scottsdale, no Arizona, em vez de se  distanciar da família, e engajou-se em trabalhos voluntários.

        Muito se fala da geração de babyboomers que atinge a idade de se aposentar e abandona em massa os empregos – em parte esgotando as reservas do Seguro Social do país ou permanecendo no trabalho por muito mais tempo do que a média histórica de idade para essa mudança.

        Uma pesquisa do instituto Gallup feita no início do ano apontou que 74% dos americanos adultos planejam continuar trabalhando após os 65. Tal mudança de atitude em relação ao trabalho é apenas uma das transformações culturais que ocorrem nos Estados Unidos. Assim, os 50 Estados terão de engalfinhar-se com isto, à medida que um país envelhecido tornar-se-á menos previsível e mais transparente à realidade.

        A mudança de atitude em relação à saúde – e ao desejo crescente dos idosos de envelhecer e morrer em suas casas – e as experiências  adquiridas no aprendizado de toda uma vida forçarão os estados a adaptarem seus orçamentos mais especificamente às necessidades da geração pós-1950 e menos aos que estão chegando agora ao mercado.

        Um rápido olhar para as estatísticas de emprego de pessoas com mais idade já revela que tal movimento está ocorrendo. Mais de 9,2 milhões de americanos com mais de 65 anos tinhm empregos fulltime ou de meio período em agosto deste ano, o que significa um crescimento de 64% em relação aos 5,6 milhões de empregos de mais velhos há uma década.

      senior ganha presente “Nos últimos 30 anos, mais ou menos, tem havido um crescimento contínuo na percentagem de trabalhadores com mais de 65 anos na força de trabalho”, afirma David Nathan, gerente de relações com a mídia da AARP (American Association of Retired Persons). Os números de 1985 estavam em 10,8% — pouco  acima da relação um para cada dez com 65 anos e mais. Com uma ou duas exceções, os percentuais subiram ano a ano desde então e agora apontam 19,2%. Esperam-se novos aumentos nos próximos anos. (do US News & World Report de 11/10/2017)

 

A sabedoria perdida

Um interessante trabalho bibliográfico realizado e publicado na Internet por Silvana Sidney Costa Santos –profissional da área de cuidados com idosos – abordou com muita propriedade o envelhecimento, partindo de reflexões filosóficas produzidas ao longo da História.
Segundo ela apontou, na civilização Oriental, Lao-Tsé correlacionou a velhice à santidade e Confúcio defendeu a piedade filial. Na civilização Ocidental, Sócrates afirmou que a velhice não apresentava peso aos prudentes; Platão direcionou a velhice à paz e à libertação e Aristóteles afirmou serem os idosos não confiáveis. Cícero aconselhou encontrar o prazer na velhice e Sêneca defendeu a velhice enquanto processo natural.
Estas reflexões filosóficas apontam para a elaboração necessária, difícil, pertinente e individual do próprio processo de envelhecimento.
Entre os gregos antigos, a idade adulta começava propriamente no período de vida que eles chamavam de acme, quando a pessoa se encontrava no auge do seu vigor físico e intelectual. A acme se dava por volta dos quarenta anos de idade. É nesse momento que uma sabedoria começava a ser vislumbrada. Era todo um processo de aquisição de conhecimentos práticos (vivência) e teóricos, que se iniciava aí e só se completava na velhice. Podia-se ser sábio, por exemplo, seguindo-se os ensinamentos de Heráclito (c. 544-474 a.C.), um dos filósofos mais antigos que conhecemos.
“Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio”, dizia o filósofo, numa das frases mais conhecidas da história da filosofia (Heráclito, 2012, p. 141). O rio passa e corre para o mar, deixando o tempo todo de ser o mesmo; e também nós, ao sair do rio, já não somos os mesmos, já fomos modificados. Tudo flui, tudo se transforma, sempre.
Considerado o primeiro grande dialético pela tradição marxista, Heráclito é aquele que dirige o pensamento para o fato de que tudo no mundo é transformação. Sábio é aquele que reconhece essa lei do mundo, a lei da transformação. Tudo muda, tudo se transforma, o tempo todo. Mas ser sábio envolve ainda algo mais do que isso: todas as transformações são regradas; elas não ocorrem de qualquer forma, a qualquer momento, motivo pelo qual o mundo não é caótico. Há uma lei, uma lógica das transformações; há aquilo que ele chama de logos
. Que significa isso? Que, por exemplo, uma barra de ferro, no decorrer do tempo, transforma-se, não permanece a mesma, mas ela não se transforma numa borboleta ou num telefone celular. Dialeticamente, o mundo é transformação, mas, precisamente por ser movido pelo logos, podemos conhecer a história dessas transformações. Se é assim, os velhos estão mais aptos a adquirir essa sabedoria: tendo vivido grande parte de seu tempo de vida, o velho é aquele que viu tudo se transformar, que viu muita coisa perecer à sua volta, mas segundo uma lógica, segundo algo que permanece, que se conserva sempre, que é eterno, o logos.
Heráclito, contudo, alertaria os mais velhos contra uma tendência que está presente também entre idosos: o conservadorismo. É evidente que não há lugar para o conservadorismo no pensamento de Heráclito, já que isso se opõe precisamente à “lei do mundo”, ao logos, que determina estar tudo em processo de transformação.
Podia-se ser sábio também seguindo os passos de Sócrates (c. 469-399 a.C.), cujo principal ensinamento conhecemos: “Sei que nada sei”. Ser sábio é reconhecer nossa ignorância. Mas não para permanecer ignorante. Pelo contrário: justamente para sair, cada vez mais, em busca de conhecimento. Sobretudo de autoconhecimento, pois sabemos que Sócrates um dia foi afetado pela frase inscrita do frontispício do pórtico do templo de Apolo Delfo: “Conhece-te a ti mesmo”.
Sócrates fez desses dois ensinamentos — sei que nada sei; conhece-te a ti mesmo — o valor máximo de sua vida, tornando-se sábio à sua maneira. Testemunho disso foi sua serenidade diante da morte
É o caso, por exemplo, de Leandro Konder (2002, p. 8), que afirma não só que Heráclito “foi sem dúvida” o “pensador mais radical da Grécia antiga”, mas que o foi no “sentido moderno da palavra”. por imposição do tribunal de Atenas, que o condenou precisamente por ensinar uma sabedoria considerada subversiva para os valores da cidade.
Ora, quem melhor do que o idoso, que já viveu boa parte da vida que o constitui e que fez dele o que ele é, para reconhecer sua ignorância constitutiva e que, no entanto, o move para adquirir sempre mais conhecimento sobre si? Ou, então, podia-se ser sábio à maneira de Epicuro, que viveu aproximadamente entre 341 e 270 a.C. Na Grécia antiga, Epicuro foi talvez o primeiro a fundar uma escola em que eram aceitos não só os homens, mas também as mulheres, os velhos, as crianças, os escravos e até os estrangeiros. Sua máxima filosófica era: “O prazer é princípio e fim da vida”. Somos
movidos pela busca do prazer. Mas ser sábio será buscar e encontrar o melhor prazer de todos. O que é o melhor prazer?
Em Epicuro, é antes de tudo ausência de dor e de prazeres perturbadores (excessivos). Como é que se busca isso? Pelo filosofar, um “pensar sobre”.
O filósofo pergunta-se pela natureza do prazer (o que ele é) e pela qualidade do prazer (qual a melhor forma de prazer). Exercendo sua potência racional de pensar, o filósofo é também sábio quando, compreendendo que o prazer é “princípio e fim da vida”, não dá, no entanto, assentimento imediato aos prazeres (como o faz o hedonista), buscando antes compreender sua natureza e perguntando-se sobre qual o melhor prazer para o humano. A maneira de fazer isso é o próprio ato de filosofar, e Epicuro descobre nesse ato o prazer por excelência. Eis por que a ética epicurista do prazer faz um elogio à filosofia como algo inseparável da sabedoria e da felicidade:
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou já que passou a hora de ser feliz. (Epicuro, 2002, p. 21)
Aparece em Epicuro, possivelmente pela primeira vez, uma ideia que é a cara aos idosos: a de que o sábio é aquele que não teme a morte. Porque a morte, para o sábio, não é nada: quando ela chega, já não estamos; quando ainda estamos, ou somos, ela não chega. Ele afirmava que “todo mal e todo bem se encontram na sensibilidade: e a morte é privação de sensibilidade”.
Há em Epicuro um belo trecho que nos interessa aqui, particularmente: Não é ao jovem que se deve considerar feliz e invejável, mas ao ancião que viveu uma bela vida. O jovem, na flor da juventude, é instável e é arrastado em todas as direções pela fortuna; ao contrário, o velho ancorou na velhice como em um porto seguro e os bens que antes esperou cheio de ansiedade e de dúvida os possui agora cingidos com firme e agradecida lembrança. (Epicuro, 1973, p. 28)
Claro, toda a questão aqui é saber em que consiste exatamente uma “bela vida” e, sobretudo, como vivê-la antes que seja tarde demais. O importante é que a pergunta sobre como viver da melhor maneira possível –melhor para si e para o outro —, que está no centro das preocupações de todo aquele que busca a sabedoria, era o que movia o pensamento de muitos filósofos antigos, principalmente Epicuro.
A busca da sabedoria como elemento central do trabalho filosófico é o grande legado epicurista e encontra-se no cerne do trabalho dos chamados filósofos helenistas, dentre os quais se destacam os estoicos, como Sêneca, Epiteto, Marco Aurélio, Lucrécio, Cícero e outros. Para eles, o cosmo e a natureza comportavam uma lógica, uma ordenação intrínseca do mundo.
Sábio é aquele que segue a natureza e, com isso, segue sua própria natureza, pois esta é fruto imanente daquela. E ele faz isso através do uso da razão. Nos estoicos, a razão é capaz de controlar aquilo que chamavam de doenças da alma: as paixões. Por exemplo, a natureza e a natureza do meu corpo são de tal forma que geram a necessidade, no meu corpo, de ingestão de certos alimentos. Quais alimentos, de que forma comê-los e em qual quantidade é algo que depende tanto da natureza das coisas quanto da do meu corpo.
Mas é a paixão que gera na alma uma doença que faz com que eu deseje mais do que é necessário ou outras coisas que não me são necessárias. Esse desejo vai contra a natureza: ele é excessivo, de um lado, e equivocado, de outro, pois embora eu necessite de alimentos, não preciso de uma quantidade desmedida, nem de alimentos sofisticados. Quem combate essa doença? A razão, porque por ela eu conheço as coisas e a mim mesmo tal como elas são e tal como eu sou, levando-me a desejar somente o necessário.
Não interessa, aqui, investigar e analisar o quanto essas éticas — socrática, epicurista, estoica etc. — são ou não consistentes, ou o quanto elas seriam úteis, aplicáveis e exequíveis em nossa época. O que importa é frisar que elas marcaram um período da história em que o conhecimento era inseparável da busca de uma sabedoria de vida, da busca da melhor maneira possível de viver bem neste mundo, consigo mesmo e com o outro.
Esse caráter inseparável entre conhecimento e sabedoria ainda estava presente em muitos pensadores cristãos da Idade Média. Contudo, é o estatuto do conhecimento que muda, no período medieval. Ser sábio não será mais propriamente conhecer, nem alcançar aquele conhecimento que só uma experiência de vida pode proporcionar. Será antes de tudo ter fé.
A revelação bíblica torna-se o repositório de toda sabedoria, bastando crer para ser sábio. Crença em quê? Sobretudo numa salvação que só se completa após a morte, quando a alma está inteiramente liberta do corpo e do mundo pecaminoso que o abriga.
A sabedoria cristã será, portanto, uma sabedoria do além, do post mortem. A ideia de sabedoria dos antigos estava ligada a uma valorização da vida e desta vida, deste mundo, e por isso mesmo era importante saber viver, viver bem.
. Já no cristianismo medieval, sabedoria se torna saber sofrer e saber morrer. Pode-se mesmo dizer que importava antes ser santo do que ser sábio, uma vez que a santidade encerrava uma ética piedosa (religiosa) capaz de oferecer a salvação do espírito. O que interessa, de fato, ao cristianismo, não é uma sabedoria de vida, mas uma salvação da alma que só pode se realizar de fato no além, num outro mundo, porque este mundo é, inerentemente, lugar de pecado.
É certo que estamos falando aqui de um cristianismo tradicional, no qual o mundo que realmente interessa é o do além, o reino de Deus, o reino dos céus. É aí que é preciso entrar e para isso se requer não certamente a antiga sabedoria, mas a sabedoria piedosa, do fiel, que rejeita esse mundo e esse corpo, porque o corpo e o mundo são lugares do pecado desde a queda de Adão.
É, portanto, muito difícil falar em sabedoria no cristianismo. Mas se considerarmos que há uma “sabedoria cristã” do fiel que aprende a sofrer e aprende a morrer, então podemos dizer que também aqui os mais velhos levam vantagem: eles sabem melhor do que os jovens o quanto o mundo tem de sofrimento e morte, pois, mais do que eles, experimentaram o caráter inerentemente perecível das coisas e pessoas amadas com um amor incapaz de reter ad æternum o objeto amado.

Conhecimento, tecnologia e capitalismo

  • Os medievais, todavia, podiam sonhar com uma vida boa, tranquila e sábia, ainda que isso fosse uma recompensa adquirida somente após a morte, após a velhice. A modernidade vem trazer a quase impossibilidade de qualquer sabedoria, mesmo na idade avançada. Na modernidade ocorre algo inquietante no campo do saber. A entrada em cena do conhecimento científico vai determinar uma separação que antes não havia: a separação entre conhecimento e erudição, de um lado, e sabedoria, de outro, sendo que esta ocupará agora um lugar muito menor no universo cultural.
    É verdade que em um filósofo moderno como Espinosa (1632-1677), no século XVII, podemos ainda encontrar, em sua “ética da felicidade”, uma perfeita junção entre conhecimento rigoroso (matemático, geométrico) e sabedoria. Mas Espinosa é quase uma exceção moderna…
    Antes dos modernos, a sabedoria era um valor maior, e todo conhecimento era buscado de maneira inseparável dela. Um alimentava o outro: quanto mais sábio, mais apto ao conhecimento; quanto mais conhecedor, mais perto da sabedoria. A modernidade separa as duas coisas. O conhecimento se fragmenta em especialidades, tornando-se igualmente mais técnico.
    Quando, a partir do Renascimento, a física se separa da cosmologia medieval, a astronomia se separa da astrologia; a matemática, da numerologia; a química,
    da alquimia etc., o campo do saber se divide em várias áreas especializadas e o conhecimento se torna cada vez mais assunto de cientistas alocados em diferentes metiers.
    Não foi a especialização dos saberes, entretanto, o que mais determinou o fim ou pelo menos a quase impossibilidade de se pensar e praticar qualquer
    forma de sabedoria, a partir da modernidade. O fator mais decisivo veio de fora da esfera do saber: originou-se do campo econômico.
    O advento da modernidade não se deveu apenas ao trabalho de filósofos e cientistas empenhados em construir conhecimentos racionais e científicos libertos do jugo da teologia judaico-cristã. Ela é também, como sabemos, uma transformação no campo econômico. É o advento do capitalismo.
    É tão impensável conceber o estatuto do saber, na Idade Média, sem as influências do campo da religião e da ideologia judaico-cristã, quanto conceber o conhecimento, na modernidade, sem as determinações do campo econômico — vale dizer, do capitalismo. O capitalismo muda toda a história do saber, sobre determinando aquela separação entre conhecimento e sabedoria.
    Sabemos que o tipo de conhecimento que mais tem valor social e cultural, em nossa época, é o científico. Contudo, o que dá valor e legitimidade às ciências não é apenas seu grau de exatidão ou sua capacidade de previsão dos fenômenos naturais. Mais do que isso, talvez sejam os produtos práticos da ciência o que mais lhe confere valor social. Quando, da física, da química ou da biologia, derivam artefatos tecnológicos, elas ganham mais reconhecimento social.
    O desenvolvimento tecnológico é inseparável do trabalho científico porque as ciências dependem das comprovações empíricas de suas teorias. Precisamente do trabalho empírico de comprovação de teses e hipóteses derivam — às vezes por mera casualidade — as novas tecnologias. Ocorre que o capitalismo é igualmente inseparável do desenvolvimento tecnológico, como Marx nos mostrou. Há, portanto, uma ligação quase intrínseca entre capitalismo e ciência.
    Essa é a principal novidade moderna. E isso muda tudo. Realmente, sabemos que Karl Marx mostrou que a causa real do lucro é a extração da mais-valia, o tempo de trabalho não pago ao trabalhador. atos de negação do capital — atos nos quais se exprime o desejo de vida contra o desejo de morte.

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