Lições de uma mulher desiludida

Simone (Lucie-Ernestine-Marie Bertrand) de Bea...

Simone (Lucie-Ernestine-Marie Bertrand) de Beauvoir  – 100 anos (Foto: * starrynight1)s.

Na era das celebridades instantâneas e fugazes (e vazias) não deixa de ser difícil compreender como uma dupla pôde obter a fama e manter-se célebre (com consistência) por mais de 50 anos.Pois foi o caso de Simone de Beauvoir e de seu companheiro, Jean-Paul Sartre. Ela, escritora e ensaísta de peso; ele, escritor, dramaturgo e um dos mais importantes filósofos do século passado.

Do relacionamento entre eles, a história conservou a aura mítica de seus engajamentos políticos e sociais e o protótipo de uma relação sentimental aberta. Companheiros por décadas, Sartre (1905-80) e o Castor, o apelido com que tratava Beauvoir (1908-86), viajaram juntos pelo mundo, mas jamais compartilharam o mesmo teto em Paris, onde viviam.

E, mesmo que um escutasse e solicitasse do outro comentários e avaliações dos próprios escritos, a influência de fato foi afetiva e sentimental. Tal como valia para a vida, a regra “juntos, mas não sob o mesmo teto” aplicava-se com rigor também às respectivas obras.

No caso de Beauvoir, que aqui é o que interessa, sua produção literária e ensaística amplia-se e repercute após a Liberação, com o fim da Segunda Guerra e da ocupação nazista da França.

Seu texto mais difundido, “O Segundo Sexo”, data de 1949. Não muito depois, em 1954, ela é agraciada com o Goncourt (o mais importante prêmio literário francês) por “Os Mandarins”.

Em seus escritos, como de praxe nos representantes do chamado existencialismo francês, vida e obra formam um amálgama.

Não se deve confundir, porém, a incorporação literária de biografemas por esses autores com o exercício da autoficção, hoje difundido numa certa literatura.

Àqueles interessava transmitir, por meio do texto, um “estar no mundo”, uma experiência que passa necessariamente pelo sujeito (que a vive e a expressa para outros sujeitos que prezam a vida do ponto de vista de seus compromissos, dívidas e angústias). Enquanto aos praticantes da modalidade exibicionista da autoficção o mundo não interessa além do próprio umbigo.

As três novelas reunidas no volume “A Mulher Desiludida” tomam a fundo essa prioridade do vivido. Ademais, seus temas incorporam de maneira mais fluida as teses biográficas (no sentido de relativas à vida, não apenas à pessoa) expostas por Simone de Beauvoir em “O Segundo Sexo” e em “A Velhice” (publicado em 1970, dois anos apenas após “A Mulher Desiludida”).

O título da primeira novela, “A Idade da Discrição”, flerta com o célebre romance “A Idade da Razão”, de Sartre. Nela, uma senhora ensaísta dialoga com a vida passada e o cinzento futuro anunciado com a chegada do que hoje se chama “terceira idade”.

O ponto de confluência é a crise: do corpo cansado, da obra superada e da paixão realizada. Mas não se trata de crise que prenuncia a ruína e, sim, de um fracasso capaz de renovar a esperança. Beauvoir resume ambiguamente ao citar a fórmula de Sainte-Beuve: “Endurecemos em alguns lugares, apodrecemos em outros, não amadurecemos nunca”.

Na segunda novela, “Monólogo”, trata-se de uma operação de vingança realizada por meio da escritura. A estrutura é a do fluxo de consciência e, com ele, a pontuação caótica permite vazar sem pudores a fúria de uma anti-heroína que acusa a vida de não tê-la permitido viver. Sublime!

A terceira novela, que dá título ao volume, toma do diário sua forma. E capta, através das grades da prisão subjetiva, o drama de uma mulher abandonada pelo marido por outra. Em sua obsessão, emerge a confissão de uma servidão voluntária, da submissão a ideais femininos que Beauvoir se aprimorou em destruir.

Pois, de “O Segundo Sexo” a “A Cerimônia do Adeus”, o empenho principal de Beauvoir foi o de construir uma nova identidade, sobretudo feminina, mas comum a todos na exigência da liberdade.

Ótimas atividades para aposentados

old champ

Buscando boas ideias de atividades para sêniores?

Há todo tipo de possibilidades. Aqui vão algumas ideias interessantes para qualquer orçamento, acompanhadas de links, abaixo, que indicam mais opções.

Quando meu pai veio viver comigo, ele já estava aposentado há muito tempo. Tinha problemas sérios de visão e audição, por isso não podia participar de muitas atividades sem auxílio. Assim, me pus a buscar novas opções de ações para aposentados, pensando não só nele, mas até para mim, no futuro. Além disso, muitos dos meus amigos também já começavam a se aposentar.

O que eu gostaria de fazer quando me aposentasse? Como eu ficasse muito em casa para cuidar de meu pai em tempo integral, eu já me sentia mesmo meio aposentado. Eu fazia meu trabalho profissional de casa e queria continuar trabalhando após a aposentadoria. Assim, descobri algumas maneiras diferentes do que fazer.

Eis algumas das coisas que encontrei:

Escolha ideias de atividades que o deixem ocupado, com a mente ativa, mesmo com pequenas coisas.

Não fique parado.  Mantenha-se  motivado a fazer algo novo. (Meu pai com certeza teve de fazer isto quando perdeu quase toda a visão e audição). Ou estabeleça uma meta a ser alcançada. Não há nada que se compare a uma meta, mesmo que pequena, para despertar a imaginação.

O tipo de atividade que você escolherá depende de fatores como interesse, saúde física, mobilidade, saúde mental, orçamento etc. Mas quaisquer que sejam as circunstâncias, há muita ação para se escolher.

Atividades ao ar livre

Desligue a TV e saia! Você pode argumentar: “Eu não sou rueiro”, mas isso não é desculpa. Saia e respire um pouco de ar puro. É fácil simplesmente dar uma volta pelo quarteirão ou ir a um clube nas redondezas e se perguntar o que você poderia fazer ao ar livre.

  • Se você não tiver um jardim ou quintal, pode usar qualquer boa área defronte à sua janela favorita, levar para lá uma mesa estilo jardim, algumas cadeiras, plantas em vasos ou penduradas, um mobile. Seu “jardim interno” terá várias utilidades além da aparência de um jardim dentro de casa.
  • Se tiver jardim ou quintal, crie um recanto florestal, mesmo que pequeno, ainda que seja numa floreira de janela. Uma estufa pode ajudá-la a escolher algumas espécies de plantas e flores fáceis de cuidar. Talvez um bonsai?
  •  Se for possível, entre para um clube. É muito mais divertido participar de atividades com outros idosos ou pessoas de todas as idade. Assim, será mais fácil dar continuidade a seus esforços. Jardinagem, caminhadas ou mesmo ciclismo são atividades ideais. Algo de que você sempre gostou, ou então alguma coisa nova para experimentar. Do tipo pescar ou navegar, ou ambos. Meu pai chegou a fazer esqui aquático aos 84 anos!
  • Exercícios para idosos preenchem o tempo e, claro, são importantes para manutenção em funcionamento das articulações, dos ossos e do coração forte. Que tal uma bicicleta? Há programas para idosos com esta atividade tão saudável!
  • Ou talvez apenas a prática de caminhadas. Muitos médicos consideram ser esta, entre todas, a melhor atividade para idosos. O médico de meu pai incentivou-o a caminhar todos os dias, mesmo quando ele já tinha mais de 90 anos.
  • Planeje fazer piqueniques e festas ao ar livre. Elas podem ser combinadas com outras celebrações –ciclismo, caminhadas, jardinagem, reuniões de grupos. Se você não tiver um cachorro, ajude um amigo que tenha um e leve o animal para passear regularmente.

o-o-o-o-o-o-o

 

Land of the Free, Home of the Gray

Envelhecer não é mais como antes.

       Ao menos nos Estados Unidos, como Bob Lowry descobriu recentemente ao tomar o caminho do que muitos consideram uma aposentadoria precoce em 2001, aos 52 anos. Lowry deu adeus ao emprego de dirigente de uma empresa de consultoria para emissoras de rádio.

       Sua mulher, Betty, deixou o trabalho de professora em seguida e ambos passaram a imaginar o que exatamente fazer da vida dali em diante.

        Mas a aposentadoria – e principalmente envelhecer – não se mostraram exatamente o que o casal esperava. De fato, apesar dos esforços para transmitir aos leitores de seu blog Aposentadoria Satisfatória, Lowry descobriu que há muita confusão sobre o que realmente significa envelhecer no século 21.

        O maior equívoco é o de que aos 65 o americano médio se aposenta e vai para a Florida. “Isto se dava com a geração anterior à minha. Muito poucos de meus leitores” – ele diz – “se contentam em ficar sentados em uma cadeira de jardim e jogar golfe o dia inteiro.”

        Ele optou por permanecer em Scottsdale, no Arizona, em vez de se  distanciar da família, e engajou-se em trabalhos voluntários.

        Muito se fala da geração de babyboomers que atinge a idade de se aposentar e abandona em massa os empregos – em parte esgotando as reservas do Seguro Social do país ou permanecendo no trabalho por muito mais tempo do que a média histórica de idade para essa mudança.

        Uma pesquisa do instituto Gallup feita no início do ano apontou que 74% dos americanos adultos planejam continuar trabalhando após os 65. Tal mudança de atitude em relação ao trabalho é apenas uma das transformações culturais que ocorrem nos Estados Unidos. Assim, os 50 Estados terão de engalfinhar-se com isto, à medida que um país envelhecido tornar-se-á menos previsível e mais transparente à realidade.

        A mudança de atitude em relação à saúde – e ao desejo crescente dos idosos de envelhecer e morrer em suas casas – e as experiências  adquiridas no aprendizado de toda uma vida forçarão os estados a adaptarem seus orçamentos mais especificamente às necessidades da geração pós-1950 e menos aos que estão chegando agora ao mercado.

        Um rápido olhar para as estatísticas de emprego de pessoas com mais idade já revela que tal movimento está ocorrendo. Mais de 9,2 milhões de americanos com mais de 65 anos tinhm empregos fulltime ou de meio período em agosto deste ano, o que significa um crescimento de 64% em relação aos 5,6 milhões de empregos de mais velhos há uma década.

      senior ganha presente “Nos últimos 30 anos, mais ou menos, tem havido um crescimento contínuo na percentagem de trabalhadores com mais de 65 anos na força de trabalho”, afirma David Nathan, gerente de relações com a mídia da AARP (American Association of Retired Persons). Os números de 1985 estavam em 10,8% — pouco  acima da relação um para cada dez com 65 anos e mais. Com uma ou duas exceções, os percentuais subiram ano a ano desde então e agora apontam 19,2%. Esperam-se novos aumentos nos próximos anos. (do US News & World Report de 11/10/2017)

 

A sabedoria perdida

Um interessante trabalho bibliográfico realizado e publicado na Internet por Silvana Sidney Costa Santos –profissional da área de cuidados com idosos – abordou com muita propriedade o envelhecimento, partindo de reflexões filosóficas produzidas ao longo da História.
Segundo ela apontou, na civilização Oriental, Lao-Tsé correlacionou a velhice à santidade e Confúcio defendeu a piedade filial. Na civilização Ocidental, Sócrates afirmou que a velhice não apresentava peso aos prudentes; Platão direcionou a velhice à paz e à libertação e Aristóteles afirmou serem os idosos não confiáveis. Cícero aconselhou encontrar o prazer na velhice e Sêneca defendeu a velhice enquanto processo natural.
Estas reflexões filosóficas apontam para a elaboração necessária, difícil, pertinente e individual do próprio processo de envelhecimento.
Entre os gregos antigos, a idade adulta começava propriamente no período de vida que eles chamavam de acme, quando a pessoa se encontrava no auge do seu vigor físico e intelectual. A acme se dava por volta dos quarenta anos de idade. É nesse momento que uma sabedoria começava a ser vislumbrada. Era todo um processo de aquisição de conhecimentos práticos (vivência) e teóricos, que se iniciava aí e só se completava na velhice. Podia-se ser sábio, por exemplo, seguindo-se os ensinamentos de Heráclito (c. 544-474 a.C.), um dos filósofos mais antigos que conhecemos.
“Não é possível entrar duas vezes no mesmo rio”, dizia o filósofo, numa das frases mais conhecidas da história da filosofia (Heráclito, 2012, p. 141). O rio passa e corre para o mar, deixando o tempo todo de ser o mesmo; e também nós, ao sair do rio, já não somos os mesmos, já fomos modificados. Tudo flui, tudo se transforma, sempre.
Considerado o primeiro grande dialético pela tradição marxista, Heráclito é aquele que dirige o pensamento para o fato de que tudo no mundo é transformação. Sábio é aquele que reconhece essa lei do mundo, a lei da transformação. Tudo muda, tudo se transforma, o tempo todo. Mas ser sábio envolve ainda algo mais do que isso: todas as transformações são regradas; elas não ocorrem de qualquer forma, a qualquer momento, motivo pelo qual o mundo não é caótico. Há uma lei, uma lógica das transformações; há aquilo que ele chama de logos
. Que significa isso? Que, por exemplo, uma barra de ferro, no decorrer do tempo, transforma-se, não permanece a mesma, mas ela não se transforma numa borboleta ou num telefone celular. Dialeticamente, o mundo é transformação, mas, precisamente por ser movido pelo logos, podemos conhecer a história dessas transformações. Se é assim, os velhos estão mais aptos a adquirir essa sabedoria: tendo vivido grande parte de seu tempo de vida, o velho é aquele que viu tudo se transformar, que viu muita coisa perecer à sua volta, mas segundo uma lógica, segundo algo que permanece, que se conserva sempre, que é eterno, o logos.
Heráclito, contudo, alertaria os mais velhos contra uma tendência que está presente também entre idosos: o conservadorismo. É evidente que não há lugar para o conservadorismo no pensamento de Heráclito, já que isso se opõe precisamente à “lei do mundo”, ao logos, que determina estar tudo em processo de transformação.
Podia-se ser sábio também seguindo os passos de Sócrates (c. 469-399 a.C.), cujo principal ensinamento conhecemos: “Sei que nada sei”. Ser sábio é reconhecer nossa ignorância. Mas não para permanecer ignorante. Pelo contrário: justamente para sair, cada vez mais, em busca de conhecimento. Sobretudo de autoconhecimento, pois sabemos que Sócrates um dia foi afetado pela frase inscrita do frontispício do pórtico do templo de Apolo Delfo: “Conhece-te a ti mesmo”.
Sócrates fez desses dois ensinamentos — sei que nada sei; conhece-te a ti mesmo — o valor máximo de sua vida, tornando-se sábio à sua maneira. Testemunho disso foi sua serenidade diante da morte
É o caso, por exemplo, de Leandro Konder (2002, p. 8), que afirma não só que Heráclito “foi sem dúvida” o “pensador mais radical da Grécia antiga”, mas que o foi no “sentido moderno da palavra”. por imposição do tribunal de Atenas, que o condenou precisamente por ensinar uma sabedoria considerada subversiva para os valores da cidade.
Ora, quem melhor do que o idoso, que já viveu boa parte da vida que o constitui e que fez dele o que ele é, para reconhecer sua ignorância constitutiva e que, no entanto, o move para adquirir sempre mais conhecimento sobre si? Ou, então, podia-se ser sábio à maneira de Epicuro, que viveu aproximadamente entre 341 e 270 a.C. Na Grécia antiga, Epicuro foi talvez o primeiro a fundar uma escola em que eram aceitos não só os homens, mas também as mulheres, os velhos, as crianças, os escravos e até os estrangeiros. Sua máxima filosófica era: “O prazer é princípio e fim da vida”. Somos
movidos pela busca do prazer. Mas ser sábio será buscar e encontrar o melhor prazer de todos. O que é o melhor prazer?
Em Epicuro, é antes de tudo ausência de dor e de prazeres perturbadores (excessivos). Como é que se busca isso? Pelo filosofar, um “pensar sobre”.
O filósofo pergunta-se pela natureza do prazer (o que ele é) e pela qualidade do prazer (qual a melhor forma de prazer). Exercendo sua potência racional de pensar, o filósofo é também sábio quando, compreendendo que o prazer é “princípio e fim da vida”, não dá, no entanto, assentimento imediato aos prazeres (como o faz o hedonista), buscando antes compreender sua natureza e perguntando-se sobre qual o melhor prazer para o humano. A maneira de fazer isso é o próprio ato de filosofar, e Epicuro descobre nesse ato o prazer por excelência. Eis por que a ética epicurista do prazer faz um elogio à filosofia como algo inseparável da sabedoria e da felicidade:
Que ninguém hesite em se dedicar à filosofia enquanto jovem, nem se canse de fazê-lo depois de velho, porque ninguém jamais é demasiado jovem ou demasiado velho para alcançar a saúde do espírito. Quem afirma que a hora de dedicar-se à filosofia ainda não chegou, ou que ela já passou, é como se dissesse que ainda não chegou ou já que passou a hora de ser feliz. (Epicuro, 2002, p. 21)
Aparece em Epicuro, possivelmente pela primeira vez, uma ideia que é a cara aos idosos: a de que o sábio é aquele que não teme a morte. Porque a morte, para o sábio, não é nada: quando ela chega, já não estamos; quando ainda estamos, ou somos, ela não chega. Ele afirmava que “todo mal e todo bem se encontram na sensibilidade: e a morte é privação de sensibilidade”.
Há em Epicuro um belo trecho que nos interessa aqui, particularmente: Não é ao jovem que se deve considerar feliz e invejável, mas ao ancião que viveu uma bela vida. O jovem, na flor da juventude, é instável e é arrastado em todas as direções pela fortuna; ao contrário, o velho ancorou na velhice como em um porto seguro e os bens que antes esperou cheio de ansiedade e de dúvida os possui agora cingidos com firme e agradecida lembrança. (Epicuro, 1973, p. 28)
Claro, toda a questão aqui é saber em que consiste exatamente uma “bela vida” e, sobretudo, como vivê-la antes que seja tarde demais. O importante é que a pergunta sobre como viver da melhor maneira possível –melhor para si e para o outro —, que está no centro das preocupações de todo aquele que busca a sabedoria, era o que movia o pensamento de muitos filósofos antigos, principalmente Epicuro.
A busca da sabedoria como elemento central do trabalho filosófico é o grande legado epicurista e encontra-se no cerne do trabalho dos chamados filósofos helenistas, dentre os quais se destacam os estoicos, como Sêneca, Epiteto, Marco Aurélio, Lucrécio, Cícero e outros. Para eles, o cosmo e a natureza comportavam uma lógica, uma ordenação intrínseca do mundo.
Sábio é aquele que segue a natureza e, com isso, segue sua própria natureza, pois esta é fruto imanente daquela. E ele faz isso através do uso da razão. Nos estoicos, a razão é capaz de controlar aquilo que chamavam de doenças da alma: as paixões. Por exemplo, a natureza e a natureza do meu corpo são de tal forma que geram a necessidade, no meu corpo, de ingestão de certos alimentos. Quais alimentos, de que forma comê-los e em qual quantidade é algo que depende tanto da natureza das coisas quanto da do meu corpo.
Mas é a paixão que gera na alma uma doença que faz com que eu deseje mais do que é necessário ou outras coisas que não me são necessárias. Esse desejo vai contra a natureza: ele é excessivo, de um lado, e equivocado, de outro, pois embora eu necessite de alimentos, não preciso de uma quantidade desmedida, nem de alimentos sofisticados. Quem combate essa doença? A razão, porque por ela eu conheço as coisas e a mim mesmo tal como elas são e tal como eu sou, levando-me a desejar somente o necessário.
Não interessa, aqui, investigar e analisar o quanto essas éticas — socrática, epicurista, estoica etc. — são ou não consistentes, ou o quanto elas seriam úteis, aplicáveis e exequíveis em nossa época. O que importa é frisar que elas marcaram um período da história em que o conhecimento era inseparável da busca de uma sabedoria de vida, da busca da melhor maneira possível de viver bem neste mundo, consigo mesmo e com o outro.
Esse caráter inseparável entre conhecimento e sabedoria ainda estava presente em muitos pensadores cristãos da Idade Média. Contudo, é o estatuto do conhecimento que muda, no período medieval. Ser sábio não será mais propriamente conhecer, nem alcançar aquele conhecimento que só uma experiência de vida pode proporcionar. Será antes de tudo ter fé.
A revelação bíblica torna-se o repositório de toda sabedoria, bastando crer para ser sábio. Crença em quê? Sobretudo numa salvação que só se completa após a morte, quando a alma está inteiramente liberta do corpo e do mundo pecaminoso que o abriga.
A sabedoria cristã será, portanto, uma sabedoria do além, do post mortem. A ideia de sabedoria dos antigos estava ligada a uma valorização da vida e desta vida, deste mundo, e por isso mesmo era importante saber viver, viver bem.
. Já no cristianismo medieval, sabedoria se torna saber sofrer e saber morrer. Pode-se mesmo dizer que importava antes ser santo do que ser sábio, uma vez que a santidade encerrava uma ética piedosa (religiosa) capaz de oferecer a salvação do espírito. O que interessa, de fato, ao cristianismo, não é uma sabedoria de vida, mas uma salvação da alma que só pode se realizar de fato no além, num outro mundo, porque este mundo é, inerentemente, lugar de pecado.
É certo que estamos falando aqui de um cristianismo tradicional, no qual o mundo que realmente interessa é o do além, o reino de Deus, o reino dos céus. É aí que é preciso entrar e para isso se requer não certamente a antiga sabedoria, mas a sabedoria piedosa, do fiel, que rejeita esse mundo e esse corpo, porque o corpo e o mundo são lugares do pecado desde a queda de Adão.
É, portanto, muito difícil falar em sabedoria no cristianismo. Mas se considerarmos que há uma “sabedoria cristã” do fiel que aprende a sofrer e aprende a morrer, então podemos dizer que também aqui os mais velhos levam vantagem: eles sabem melhor do que os jovens o quanto o mundo tem de sofrimento e morte, pois, mais do que eles, experimentaram o caráter inerentemente perecível das coisas e pessoas amadas com um amor incapaz de reter ad æternum o objeto amado.

Conhecimento, tecnologia e capitalismo

  • Os medievais, todavia, podiam sonhar com uma vida boa, tranquila e sábia, ainda que isso fosse uma recompensa adquirida somente após a morte, após a velhice. A modernidade vem trazer a quase impossibilidade de qualquer sabedoria, mesmo na idade avançada. Na modernidade ocorre algo inquietante no campo do saber. A entrada em cena do conhecimento científico vai determinar uma separação que antes não havia: a separação entre conhecimento e erudição, de um lado, e sabedoria, de outro, sendo que esta ocupará agora um lugar muito menor no universo cultural.
    É verdade que em um filósofo moderno como Espinosa (1632-1677), no século XVII, podemos ainda encontrar, em sua “ética da felicidade”, uma perfeita junção entre conhecimento rigoroso (matemático, geométrico) e sabedoria. Mas Espinosa é quase uma exceção moderna…
    Antes dos modernos, a sabedoria era um valor maior, e todo conhecimento era buscado de maneira inseparável dela. Um alimentava o outro: quanto mais sábio, mais apto ao conhecimento; quanto mais conhecedor, mais perto da sabedoria. A modernidade separa as duas coisas. O conhecimento se fragmenta em especialidades, tornando-se igualmente mais técnico.
    Quando, a partir do Renascimento, a física se separa da cosmologia medieval, a astronomia se separa da astrologia; a matemática, da numerologia; a química,
    da alquimia etc., o campo do saber se divide em várias áreas especializadas e o conhecimento se torna cada vez mais assunto de cientistas alocados em diferentes metiers.
    Não foi a especialização dos saberes, entretanto, o que mais determinou o fim ou pelo menos a quase impossibilidade de se pensar e praticar qualquer
    forma de sabedoria, a partir da modernidade. O fator mais decisivo veio de fora da esfera do saber: originou-se do campo econômico.
    O advento da modernidade não se deveu apenas ao trabalho de filósofos e cientistas empenhados em construir conhecimentos racionais e científicos libertos do jugo da teologia judaico-cristã. Ela é também, como sabemos, uma transformação no campo econômico. É o advento do capitalismo.
    É tão impensável conceber o estatuto do saber, na Idade Média, sem as influências do campo da religião e da ideologia judaico-cristã, quanto conceber o conhecimento, na modernidade, sem as determinações do campo econômico — vale dizer, do capitalismo. O capitalismo muda toda a história do saber, sobre determinando aquela separação entre conhecimento e sabedoria.
    Sabemos que o tipo de conhecimento que mais tem valor social e cultural, em nossa época, é o científico. Contudo, o que dá valor e legitimidade às ciências não é apenas seu grau de exatidão ou sua capacidade de previsão dos fenômenos naturais. Mais do que isso, talvez sejam os produtos práticos da ciência o que mais lhe confere valor social. Quando, da física, da química ou da biologia, derivam artefatos tecnológicos, elas ganham mais reconhecimento social.
    O desenvolvimento tecnológico é inseparável do trabalho científico porque as ciências dependem das comprovações empíricas de suas teorias. Precisamente do trabalho empírico de comprovação de teses e hipóteses derivam — às vezes por mera casualidade — as novas tecnologias. Ocorre que o capitalismo é igualmente inseparável do desenvolvimento tecnológico, como Marx nos mostrou. Há, portanto, uma ligação quase intrínseca entre capitalismo e ciência.
    Essa é a principal novidade moderna. E isso muda tudo. Realmente, sabemos que Karl Marx mostrou que a causa real do lucro é a extração da mais-valia, o tempo de trabalho não pago ao trabalhador. atos de negação do capital — atos nos quais se exprime o desejo de vida contra o desejo de morte.

Continue reading

Da cabana escura ao palácio de cristal

A primeira parte da palestra da Profª Heloísa Pires no 11º Ciclo de Palestras Espíritas, realizada no Grupo Espírita Batuíra na sexta-feira, 7 de abril, foi dedicada à memória da psiquiatra suíça radicada nos EUA Elisabeth Kübler-Ross (1926/2004) e de seu livro On Death and Dying (Sobre a Morte e o Processo de Morrer), de 1969. Depois de árduas batalhas contra os preconceitos, sua obra humanitária foi finalmente reconhecida ao lhe ser atribuido em 2007 o National Women’s Hall of Fame dos Estados Unidos.
Antes, porém, ela teve de ver queimar até o chão o prédio de um abrigo que criara com seus recursos para acolher pacientes aidéticos, incendiado pela incompreensão e ignorância de seus vizinhos, entre outras ofensas e perseguições de que foi vítima. Foi por aí que a palestrante iniciou a abordagem do tema da tarde: “Preparação para a morte, que não existe”.
Heloísa Pires destacou que, após a publicação que a tornou conhecida e respeitada, Kübler-Ross, com a colaboração de outros cientistas, se aprofundou nos estudos da nova especialidade médica que é a tanatologia. Seu livro de 1969 identifica as fases nos períodos que antecedem a morte e cria métodos para medicos, enfermeiros e familiares acompanharem e ajudarem pacientes terminais. Ela foi pioneira no tratamento de pacientes com Aids e deu impulso à criação de uma rede de asilos específicos para doentes terminais.
Para grifar que muitas vezes a medicina convencional equivocadamente impõe tratamentos e terapias que geram ainda mais sofrimento a aqueles que já padecem dores severas, Heloísa contou, para ilustrar os métodos de Elisabeth, a história de um menino em estado muito adiantado de câncer com quem ela estava conversando em um hospital (ela tinha o hábito de dedicar bom tempo a ouvir pacientes), e o menino lhe disse que o que de melhor lhe poderia acontecer seria se livrar de máquinas e agulhas, que o faziam sofrer. Elisabeth conseguiu que o menino obtivesse licença para ir para casa.
Lá chegando, o menino pediu ao pai que fosse buscar no porão da casa uma bicicleta novinha que ele havia ganho e nunca usara; em seguida, fez o pai colocar as rodinhas que apoiam quem ainda não sabe pedalar, e saiu pela porta, para desespero dos pais e da doutora, que o acompanhara. O “passeio” durou vários minutos angustiantes para os três adultos. Quando já estavam muito preocupados, eles vêem o menino voltar para casa com um imenso sorriso que ia de uma orelha à outra. Em seguida, ele quis falar a sós com o irmãozinho mais novo. O menino menor, ao descer para a sala, revelou que a conversa deles teve dois pontos importantes: primeiro, que ele poderia herdar a bicicleta do mais velho: segundo, que, para isso, ele teria de jamais usar “aquelas rodinhas ridículas!”.
Segundo Heloísa, Elisabeth cunhou a frase: “A melhor preparação para a morte é amar o próximo”. E outra frase também de Elisabeth é o conhecido bordão: “A morte não existe.” A psiquiatra homenageada na palestra de Heloísa Pires também afirmou: “Nas escolas, mesmo infantis, deveria haver uma preparação para a morte”. Nas lições de Allan Kardec – lembrou a palestrante – “a morte é apenas a exaustão do corpo”. E, segundo o poeta Manuel Bandeira, viemos ao mundo com bilhetes de ida e volta…” “Assim”, continuou, “temos de nos atualizar em Kardec, para quem o que vale é fazer o melhor para o próximo.”
Heloísa também lembrou que todo sofrimento é fruto de insuficiência moral. “Então, temos de nos esforçar (pela elevação moral) para não fazermos feio ao passar para o mundo espiritual. “Se isto não for possível” – brincou ela –, “então ore e peça para ‘baixar’ no seu Centro!” E citou o episódio em que Sócrates é cercado por discípulos e pela esposa, Xantipa, depois de já ter ingerido cicuta. Estavam todos agitados e inconsoláveis, e Sócrates, irritado, pediu silêncio, que se aquietassem porque ele precisava de concentração para o que teria pela frente..
Então – acrescentou – não há razão para o medo da morte. “No tempo e no espaço ninguém é julgado: precisamos aprender a nos perdoar”. Um bom começo é a leitura da “vacina moral” que se encontra no Evangelho Segundo o Espiritismo. “Além disso” – pontuou – “a maior prova da misericórdia de Deus é a reencarnação”. E concluiu citando uma comparação feita por seu pai – o jornalista, filósofo, autor de importantes livros sobre a Doutrina Espírita – José Herculano Pires, em seu leito de morte: “Morrer”, disse ele, “é deixar uma cabana escura e entrar em um palácio de cristal”.(Sebastião Aguiar)

——————————————————————————–

Viver com menos, trabalhar mais, economizar.

 

Segundo um artigo recente da revista britânica The Economist, os americanos estão vivendo mais, mas se aposentam mais cedo que há 50 anos. As pensões se tornaram menos generosas, o Seguro Social também, as despesas médicas cresceram e, ainda por cima, eles não economizaram o que deveriam para a velhice.

Tudo somado, o sistema americano vive uma crise de crescimento e, segundo o recém-lançado livro de Charles Ellis, Alicia Munnell e Andrew Eschtruth, só há três saídas para a situação: os aposentados devem aprender a viver com menos, trabalhar por mais tempo ou economizar durante o período produtivo. As duas últimas opções são as mais recomendáveis, embora obviamente menos atraentes.

Primeiro, o problema. A duração média de vida dos aposentados aumentou de 16 anos, na década de 1960, para 20 anos, agora. Há 50% de chance de que um membro do casal aposentado viva até os 93 anos. A idade média deles é 64 anos (o limite mínimo é 62), mais baixa do que em 1960.

Para a maior parte dos americanos, a principal renda nesse período da vida provém do Seguro Social, a pensão do governo. Originalmente, o princípio que norteava o sistema era que o trabalhador recebesse de pensão o que havia pago  nos anos de trabalho. Esse princípio, porém, foi desvirtuado pelas aposentadorias precoces, em que se recebe muito mais do que se contribuiu. Se continuar como está, o fundo com que se paga o Seguro Social se esgotará em 2023, pois o sistema é essencialmente “saiu, recebeu”.

Várias tentativas de ajuste de suas finanças fizeram com que o Seguro Social pagasse menos, proporcionalmente, do que se ganhava quando na ativa. Durante as décadas de 1980 e 1990, essa taxa de substituição estava por volta de 40% para o trabalhador médio. Porém, a idade formal de aposentadoria está subindo para 67 anos. Os que se aposentam antes do tempo recebem menos que os demais. Os impostos ficaram mais pesados para esses trabalhadores: em 1985 apenas 10% dos que recebiam Seguro Social eram tributados; agora 37% são. Os cuidados médicos ficaram mais caros e são descontados diretamente das pensões. O efeito esperado é a queda da taxa de reposição para 31%, por volta de 2030. Se o Congresso decidir reabastecer o fundo de pensões com corte de benefícios, a taxa cairá ainda mais.

Enquanto isso, para trabalhadores de empresas privadas, os tipos de pensões que determinavam o salário final a ser recebido foram substituídos por contribuições menos generosas, conhecidas como 401 (k)s, que não só expõem esses empregados a investimentos de risco como impõem perdas de cerca de 9% no que recebem anualmente.

Dito isto, o que se pode fazer? Os trabalhadores precisarão trabalhar por mais tempo. No sistema atual do Seguro Social americano, adiar a aposentadoria para os 70 anos importa em um aumento de 76% na pensão, comparada com quem se aposentou aos 62.

De qualquer forma, os trabalhadores precisarão ter mais atenção com suas necessidades de ganho: uma pesquisa feita em 2014 mostrou que 36% dos trabalhadores nada tinham guardado para os tempos de descanso, e 56% nem mesmo tinham ideia de quanto dinheiro poderiam precisar. (de The Economist)